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Às vezes cansa ser mulher

Cansa e dói saber que mesmo quando a gente tem a coragem de denunciar, de pedir socorro, pode não ser suficiente.

03/11/2026 às 19h27 Atualizada em 03/11/2026 às 20h22
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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Às vezes cansa ser mulher

Por Socorro Camelo

 

“Às vezes cansa ser mulher.” A frase veio de uma amiga jornalista numa conversa. E bateu fundo. Não era cansaço do próprio corpo ou do gênero. Era o cansaço exaustivo de saber que, para tantas de nós, apenas existir exige uma vigilância invisível aos olhos do mundo.

Cansa andar pela rua segurando a chave firme entre os dedos. Cansa a obrigação de mandar mensagem dizendo “cheguei”. O mapa compartilhado. O cálculo diário e automático do tom de voz, da roupa, da calçada mais clara, do caminho de volta. A gente aprende cedo demais a medir riscos que não deveriam existir.

E dói. Cansa e dói saber que mesmo quando a gente tem a coragem de denunciar, de gritar, de pedir socorro... ainda assim pode não ser suficiente.

Elyne de Assis Nogueira tinha 39 anos. Era médica. Cuidava da vida dos outros lá em Brasiléia. Tinha amigos, rotina, um futuro inteiro pela frente. Na noite de segunda-feira, enquanto tentava apenas viver a sua noite, foi assassinada.

A notícia diz que ela já tinha feito o que a lei manda, denunciou as ameaças, tinha uma medida protetiva no papel. A polícia agora investiga as circunstâncias e busca os envolvidos.

É horrível escrever sobre isso. Dá uma sensação sufocante de que as palavras chegam sempre atrasadas. Antes de terminar qualquer frase, a pergunta que se faz é porque ? Como alguém olha para uma mulher e acha que tem o direito de decidir se ela continua viva?

As imagens de segurança dão um nó no peito. Mas tem uma coisa que chama atenção. No segundo em que Elyne é atingida, os dois homens que estavam na mesa correm. Talvez no susto, no instinto de se salvar do horror. Mas a amiga não. A amiga corre para o lado oposto. Corre em direção à Elyne. Enquanto o medo afasta o resto do mundo, ela se curva para amparar a amiga.

Olhando aquilo, me veio a voz da Anne, aquela amiga que solta verdades que grudam na gente. “Somos nós por nós”, ela disse.

Talvez precisemos ser, porque ainda existem homens que confundem afeto com domínio, separação com afronta e liberdade com provocação. É preciso repetir sem rodeios. Posse não é amor. Controle não é cuidado. E o fim de um relacionamento jamais dá a alguém o direito de perseguir ou tirar uma vida.

Também não é a recusa dela, sua autonomia ou a busca por liberdade que fabrica um assassino. O que a violência expõe é a incapacidade de um homem de aceitar que uma mulher pertence a si mesma. Desviar o olhar dessa verdade só serve para empurrar a culpa, mais uma vez, para o colo de quem foi morta.

Elyne não pode ser reduzida a uma estatística ou a uma manchete fria. Antes de virar vítima, ela era uma mulher inteira. Médica, amiga, com planos, risadas e uma vida cheia de detalhes que a notícia não consegue alcançar. O que o jornal não conta é justamente o principal. É a vida que pulsava ali antes do tiro e tudo o que deveria ter continuado depois dele.

Quantas Elynes ainda vamos chorar até parar de tratar o feminicídio como se tivesse surgido do nada? Cada caso tem sua história, seu rosto, sua família. 

Mas há um fio terrível que os une. Mulheres ameaçadas, perseguidas, mortas porque alguém não aceitou que elas pudessem partir, escolher, dizer não, continuar... 

Cada história tem um rosto, uma casa, uma dor. Mas existe esse fio vermelho e cruel que conecta todas elas: mulheres perseguidas porque disseram “não”.

Quando uma mulher denuncia e morre com um papel de proteção na bolsa, a dor vira uma pergunta que a sociedade inteira precisa responder. A medida protetiva serviu para quê? Onde estava o Estado quando o socorro foi pedido? Quem falhou? Descobrir quem mandou puxar o gatilho é o mínimo. 

O rigor da investigação precisa mostrar como a ameaça pôde crescer livremente diante de tantos sinais explícitos.

“Às vezes cansa ser mulher.”

Cansa repetir as mesmas frases. Cansa saber que a nossa liberdade custa um plano de contingência. Cansa ver que ter coragem não garante vida. Cansa ver nomes virando memória enquanto a estrutura continua a mesma.

Hoje, o Acre chora por Elyne. Mas o choro não traz ninguém de volta e não previne o amanhã. É preciso apuração até o fim, punição sem brechas e, acima de tudo, proteção real para que o próximo pedido de ajuda não seja a última notícia de alguém.

Somos nós por nós, sim. A amiga que correu até Elyne, enquanto os outros fugiam, deu a essa frase uma imagem impossível de esquecer. Mas não podemos estar sozinhas nessa corrida. A solidariedade entre mulheres chega para amparar. O Estado tem o dever de chegar antes, quando ainda há uma vida a proteger e um tiro a impedir.

Às vezes cansa ser mulher. Mas nenhuma de nós deveria precisar morrer para que finalmente nos escutem.

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