
Por Giselle Moraes
Deitada num quarto de hospital, ainda sem saber direito o que havia acontecido, sentindo um desconforto na região da barriga e um calafrio percorrendo o corpo, tentei abrir os olhos. Uma forte sensação de peso me impedia de despertar daquele vazio escuro. De repente, senti, na ponta dos dedos dos pés, um toque pequeno, suave e quente. Uma leve massagem e aquele puxão no “dedão”, tão familiar:
— Acorda, minha filha!
Em uma fração de segundo, tudo me voltou à mente: a dor, o medo, as palavras do médico, a indecisão, a solidão, o desespero. Eu tinha 18 anos e estava na emergência de um hospital em Fortaleza, diante de uma crise aguda de apendicite. A avaliação indicava uma cirurgia de emergência. Meu estado era crítico. Cadê os responsáveis?
Na época, eu havia começado o curso de Fonoaudiologia e morava com meu irmão, um primo e uma amiga. Todos menores de 21 anos. Quem iria autorizar a cirurgia? No limite da dor, eu pouco entendia o que se passava. Então, desmaiei e não vi mais nada. Só acordei naquele momento, ao sentir o calor e o aconchego daquelas mãos brincando com os dedos dos meus pés.
Era meu pai. Ele havia saído do Acre quase 24 horas antes. O voo, por obra do destino, sofreu uma pequena pane e precisou pousar em outro aeroporto no meio do caminho. Só depois ele conseguiu chegar ao Ceará. Nesse meio-tempo, o cirurgião não podia esperar, e meu namorado, na época, autorizou a cirurgia. Foi corajoso. E não tinha muita escolha: eu corria risco real de vida.
Guardo dessa história a lembrança e a sensação de segurança que meu pai sempre trouxe à minha vida. Todas as vezes que precisei, ele esteve ao meu lado: seja puxando meu dedão do pé, seja brigando porque eu tinha feito alguma besteira. A presença dele preenchia as nossas vidas.
Teria aqui inúmeras histórias para contar, relembrar, rir e chorar. Feliz da alma que guarda memórias — e eu as tenho, celebradas e cultivadas.
Hoje, primeiro de novembro, véspera do feriado de Finados, fico me perguntando sobre o significado da data. E, claro, como boa inquisidora, fui pesquisar: “A escolha do dia 2 de novembro está relacionada à proximidade com o Dia de Todos os Santos, celebrado pela Igreja Católica.” Há toda uma explicação fundamentada na tradição da Igreja, e a data se tornou referência em várias partes do mundo. Resumindo de forma mais clara: é tradição.
Nunca gostei da data, e isso se deve a uma tradição seguida religiosamente pelo meu pai: todo Dia de Finados, tínhamos que ir ao cemitério com ele. Sol escaldante, aquele cheiro de vela, pessoas que se encontravam e ficavam falando sobre tudo, enquanto eu morria de sono, de preguiça e de mau humor. Definitivamente, não gostava. Mas ia, com meu pai. Ele perdeu o pai ainda criança e, todos os anos, visitava o túmulo de João Gomes, meu avô.
Lembro que, desde a adolescência, quando parei de ir ao cemitério, eu dizia a ele:
“Pai, se o senhor morrer antes de mim, me perdoa. Eu não vou ao cemitério. Não acredito que o senhor esteja lá; pra mim, o senhor vai morar sempre no meu coração. E, quando eu precisar celebrar a sua vida, vai ser através da música, da alegria, dos dias bons. Não fique chateado comigo!”
Foi num fevereiro que me despedi do meu pai. Dei o último abraço, o último beijo e ouvi aquele “vai dar tudo certo”. Foram as nossas últimas palavras. Lembro exatamente da roupa que ele vestia, do sorriso, da pressa de ir para o aeroporto, do “até breve”. Meu pai retornou um mês depois, mas, pela vontade de Deus, aquele foi o nosso último adeus. Voltou para casa e já não fazia mais parte desta dimensão. Meu pai partiu, e eu me senti só pela primeira vez na vida.
Os anos passam, a dor se transforma, a ausência nunca é preenchida, a saudade do abraço e o eco do “até logo” nunca vão embora. E chega o Dia de Finados, mais uma vez, e eu converso com meu pai. Temos grandes diálogos. Relembro nossos acordos e digo: “Pai, cemitério não é o teu lar. Você mora aqui dentro.” Ele sorri e diz: “A bichinha teimosa!” E rimos. Riso de pai e filha.
Sei que talvez alguns não entendam. Podem achar, inclusive, que não estou honrando meu pai, que deveria ir ao cemitério, já que para ele era tão importante. Não sei se estou certa ou errada — e, na verdade, nem busco essa resposta. Entendo que eu e meu pai temos a nossa tradição, e é assim que nos entendemos.
Pai, te celebro todos os dias: na sua força, no seu exemplo, na lembrança das noites em que esteve ao meu lado, nos domingos em que eu ligava e dizia: “Pai, tô morrendo de ressaca.” E o senhor respondia: “Toma um caldo.” Celebro o avô maravilhoso que foi e que sempre será para os meus filhos.
E sei que, em muitas noites, acordo e quase posso sentir aquele puxão no dedão do pé. É como se, por alguns instantes, o tempo suspendesse a ausência e me devolvesse a menina de 18 anos, segura, acolhida e protegida pelas mãos do pai.
Hoje, entendo que algumas tradições não precisam de datas, de lugares ou de rituais. Algumas sobrevivem no afeto, nas lembranças e nos pequenos gestos que o tempo não consegue apagar.
Meu pai não mora no cemitério. Mora nas minhas histórias, nas minhas risadas, nos meus filhos e em tudo aquilo que sou.
E, se a saudade apertar, já sei: basta fechar os olhos e esperar aquele puxão no dedão do pé.
Pai, gratidão por ter me aceitado como filha. Sempre, juntos!
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