
Por Socorro Camelo
Ando pensando nesse sexta chuvosa que tenho saudade de ser filha. Não é da infância, que é o território de joelhos ralados e risos encomendados para as visitas. Tenho saudade, na verdade, da geografia exata que eu ocupava no mundo de alguém. Um lugar sem currículo, sem serventia, onde eu não precisava provar nada nem chegar com as mãos cheias de respostas.
Ser filha era a licença poética de poder chegar em pedaços. Eu não precisava colar os cacos na sala, explicar a origem de cada fratura ou pedir desculpas pela bagunça do meu peito. Havia um olhar que traduzia o meu cansaço muito antes que a minha boca encontrasse as palavras. Às vezes, o amor inteiro coube numa pergunta miúda, dessas que salvam o dia sem alarde: “Você já comeu?”
A independência me vestiu com elegância, admito. Fica bem nos retratos, traz um orgulho bonito. Mas a independência não tem ombro. Não serve para encostar a cabeça.
Sinto uma falta doída de ter para quem levar uma dor ainda sem nome. De ser acolhida antes de precisar traduzir o que sinto em um relatório compreensível, com começo, meio e providências. Queria, por um instante apenas, o privilégio de não saber o que fazer sem ser imediatamente promovida a adulta encarregada da solução.
Talvez a saudade de ser filha seja só esse desejo bonito e secreto de descansar da exaustiva tarefa de ser o meu próprio abrigo. Desarmar a guarda diante de alguém para quem eu não precise parecer inteira, sensata ou invencível. Alguém que me chame pelo meu nome mais simples e me devolva a mim mesma.
De todas as ausências que me habitam, é essa a que sopra mais fundo. A saudade de um colo que não era apenas gesto, era endereço. Da certeza, ainda que fugaz, de que eu podia desabar inteira, porque existia um chão amoroso que saberia exatamente como me recolher.
Tenho saudade de ser filha. De não ser teto, nem alicerce, nem resposta. Só alguém que pudesse fechar os olhos no colo de alguém e, por alguns minutos, deixar o mundo aos cuidados de outra pessoa.
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