
Por Chico Araújo
Tem um tipo que não aceita ser avisado. Você avisa, ele quebra. De repente. Sem conserto. Está no Provérbios, mas podia estar no manual do condomínio.
Ele é fácil de reconhecer. Você discute com ele e ele ou se zanga ou ri. (Às vezes as duas coisas, o que é pior). Não escuta, reage. É o dono da verdade com aluguel atrasado.
O problema é que ele não tem freio. Nem por fora, nem por dentro. O insensato põe tudo para fora — mágoa, grito, opinião. Acha que isso é ser autêntico. Não é. É só ser sem tampa. Gente livre de verdade é gente que sabe se conter. O resto é só barulho.
Tem ainda o primo dele, o precipitado. Esse é pior que o tolo. O tolo é tolo profissional. O precipitado é amador apressado: fala antes de pensar. Depois, se sobrar tempo, pensa no que falou. (Geralmente não sobra).
Repreendido, ele não melhora. Piora. Se ira. E a ira é uma fera esquisita: primeiro morde o dono. Depois sai mordendo a sala inteira. Uma briga puxa outra, que puxa outra. No fim, o que era um puxão de orelha vira boletim de ocorrência.
Por quê? Orgulho. Aquele espelhinho interno que aumenta a gente. O homem se olha e se vê enorme. A vida, que não usa espelho, trata de mostrar o tamanho real. E a queda — ah, a queda dói. O humilde, que aceita ser pequeno de vez em quando, continua de pé. Vai entender.
Os antigos já sabiam: tem que corrigir cedo. Vara, conversa, limite. Não é maldade, é acabamento. Família que não dá limite entrega ao mundo um adulto que não sabe perder. E o mundo, meu amigo, é um professor sem paciência.
E há o caso perdido. O que ouve e não escuta. Você fala, ele faz "aham", e continua igualzinho. Palavra para ele é vento. Só aprende apanhando da consequência. Escolheu a prisão de não mudar.
No fundo é simples — e é antropologia, sociologia, teologia, tudo junto: sem correção, a gente se desmancha. Sem visão, o povo se perde. Sem freio, quem tem poder abusa. Sem humildade, quem tem orgulho cai.
Aceitar um aviso não é fraqueza. É o único jeito de não quebrar de repente.
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