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Geral Por Talita Montysuma

A inimiga do fim

Não é medo de morrer que temos, mas do limite, da castração, do abandono

16/05/2022 às 10h54
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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Héctor Babenco.
Héctor Babenco.

Por Talita Montysuma

Essa semana assisti um documentário lindo (acho que posso chama-lo assim) sobre os últimos dias do Héctor Babenco, Bárbara Paz sua esposa no fim da vida que dirige e produz.

Héctor nasce na Argentina e se naturaliza brasileiro em 1977, ele dirigiu os filmes Pixote, Carandiru, Meu amigo Hindu e o Beijo da Mulher Aranha que lhe rendeu uma indicação ao Oscar em 1986 aos 35 anos.

E foi nesse ano que Héctor descobre um câncer linfático que após um transplante ele fica curado, poderemos ter uma prévia desse período no filme Meu amigo Hindu, mas ele diz que esse filme não é biográfico, enfim, mas o que me chamou a atenção sobre o documentário é como ele vai lidando com a morte.

Entre o linfoma a sua morte aos 70 anos ele nunca renunciou a condição de humano e a nossa caminhada na milha verde – a referência do filme a Espera do milagre – ele não recua diante dela e a acolhe a transforma em arte em cenas lindas e poéticas com trilhas sonoras de emocionar.

Babenco faz um giro que só um neurótico analisado consegue, transformar sua angustia em arte em poesia escópica, nós da neurose estamos sempre com medo da morte o fim não é uma opção e isso é assim desde da fase anal por volta dos 03 ou 04 anos que a criança começa a desfraldar e entende que pode controlar seu corpo e aí começa a saga do limite, da birra, a recusa em cantar os parabéns, a recusa em usar a roupa que a mãe escolheu ou a recusa em comer.

Quando crescemos fazemos esse mesmo movimento, mas agora é um casamento que mesmo morto as pessoas insistem em carregar como uma pedra presa ao pescoço, um emprego que já não faz mais sentido, uma amizade que não é mais significativa, deixamos nossos entes queridos morrendo em hospitais – quase ninguém morre em casa – temos medo de ver a morte de perto que olha-la no olho.

Usamos ou melhor fantasiamos sempre que temos uma capa da invisibilidade como no conto dos três irmãos ou aos mais eruditos o filme sétimo selo que para ganharmos tempo a gente fica nesse eterno jogo de xadrez com a morte, mas o que a gente não sabe e o pai Freud vai nos dizer que para o nosso inconsciente seremos sempre imortais, pois é impossível pensarmos a morte na primeira pessoa, pensamos a nossa morte como expectadores e o inconsciente por não ter tempo cronológico não acreditamos no nosso fim.

Sendo assim, não é medo de morrer que temos, mas do limite, da castração, do abandono. O psicanalista Contardo Caligaris diz suas últimas palavras em seu leito de morte “Estou morrendo. Espero estar à altura”. Babenco diz algo como “[...] devemos quando estivemos perto da morte, fazer uma festa, com boa comida, caipirinha, amigos e um médico. Para ouvir o coração e dizer que ele parou”.

Paradoxalmente, toda tentativa de evitar a morte só irá nos aproximar mais dela quando conseguimos um pequeno contratempo nessa valsa e conseguimos dar uma pequena dançadinha de rostinho colado ou mesmo dar risada, mesmo que seja de nervoso e lembrando que nunca é demais, para que a vida continue existindo precisamos que outras coisas morram, que os círculos se fechem que as coisas terminem.

Fim!

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Sobre Psicóloga, especialista em Clínica Psicanalítica.
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