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E por que não reduzir a riqueza? – Por Aníbal Diniz

A África é o continente que mais cresce no mundo, a uma média de 5% ao ano nos últimos 15 anos, que concentra 50% das operações bancárias móveis do planeta e que a abordagem catastrófica feita pela mídia não condiz com a realidade vivida pela maioria do povo africano

02/11/2015 11h00
Por: Socorro Camelo Fonte: Acreaovivo.com
E por que não reduzir a riqueza? – Por Aníbal Diniz

Graças à revolução tecnológica sem precedentes da qual nossa geração é beneficiária, tive o prazer de acompanhar a excelente transmissão via streaming que a TV Aldeia fez da palestra que o Sub-Secretário Geral da Organização das Nações Unidas - ONU e Secretário-executivo da Comissão Econômica das Nações Unidas para África - CEA, o magistral africano de Guiné Bissau Carlos Lopes, proferiu para poucos no auditório da Biblioteca Pública Estadual, em Rio Branco, dia 21 de outubro. Antecipo meu agradecimento ao amigo Alexandre Nunes, diretor da Rede Pública de Rádio e Televisão do Acre, por ter compartilhado via whatsApp o endereço de acesso ao excepcional conteúdo. Afinal, não é todo dia que a gente tem uma das autoridades mais respeitadas da ONU, falando em português, sobre sua experiência de trabalho humanitário e os desafios que os povos do planeta têm que superar para que tenhamos um mundo melhor, mais solidário e que responda melhor às equações que Jean-Jacques Rousseau formulou 254 anos atrás em seu “Contrato Social” no que diz respeito ao equilíbrio entre homem e natureza e a extensão da solidariedade entre pais e filhos para a comunidade, para as nações e para as gerações atuais e futuras. 

Foram tantas abordagens interessantes nas duas horas de conferência, que só assistindo-a integralmente  aqui para ter a dimensão de seu alcance. É fascinante a forma como esse PhD pela Universidade de Sorbone, apaixonado pelo Acre e amigo do Elson Martins e da Andrea Zílio, passeia com total domínio sobre temas tão vastos e palpitantes quanto história, política e relações internacionais, economia, sociologia, demografia e os compromissos a serem firmados na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, que vai acontecer em dezembro em Paris. Ele começa resgatando as principais deliberações sobre o meio ambiente e sustentabilidade desde Estocolmo em 1972, Rio de Janeiro em 1992 e Rio Mais 20, em 2012, refletindo como o antigo conceito de conservação evoluiu para o conceito de sustentabilidade hoje firmado nos pilares econômico, social e ambiental, todos com a mesma ordem de importância, e sob a responsabilidade de todos.

Carlos Lopes mostra, da mesma forma que havia feito no mês de maio em entrevista à  Carta Capital e reafirmou dia 23 último na reunião no Instituto Lula, em São Paulo, que a África é o continente que mais cresce no mundo, a uma média de 5% ao ano nos últimos 15 anos, que concentra 50% das operações bancárias móveis do planeta e que a abordagem catastrófica feita pela mídia não condiz com a realidade vivida pela maioria do povo africano. Fala-se em tragédia migratória, mas ele mostra que num continente com 1 bilhão de habitantes, apenas 2 milhões de pessoas, ou seja 0,02% migram para a Europa por ano. E mais: prova que a Europa precisa da juventude africana porque sua população está envelhecida, não tem reposição de força de trabalho e em muito breve não suportará o desequilíbrio previdenciário que precisa de mais pessoas trabalhando e contribuindo para sustentar os aposentados. Citou o exemplo da Espanha, que recebeu e legalizou mais de 3 milhões de latino-americanos nos últimos anos e foi exatamente o primeiro país europeu a sair da atual crise econômica.

Abordou questões polêmicas como a manutenção da reserva cambial em instituições financeiras fora de áreas de risco, que prejudica fortemente países emergentes e beneficia as grandes potências. É incrível que os países africanos tenham 600 bilhões de dólares em reservas cambiais, mas não fazer uso dos dividendos dessa poupança para o seu desenvolvimento. O próprio Brasil, com seus 361 bilhões de dólares em reservas cambiais está impossibilitado de lançar mão de parte desse valor para equilibrar seu orçamento e se submete a apresentar uma proposta orçamentária para 2016 com R$ 52, 60 ou 100 bilhões de déficit, mesmo tendo mais de R$ 1 trilhão em reservas. É só fazer a conversão dos 361 bilhões de dólares pela cotação do dia e teremos o valor exato das nossas reservas em reais! 

A importância da economia verde é outra abordagem relevante de Carlos Lopes. Ele defende que na COP-21 sejam firmados compromissos pautados pela justiça climática, com os países que poluem menos sendo financeiramente compensado pelos que mais poluem. Estados Unidos e China, que são responsáveis por 40% das emissões de gases poluentes no planeta, têm que encostar o umbigo no balcão e dizer como vão pagar pelos danos causados à humanidade.

Recorreu ao francês Thomas Piketty, autor de “O Capital no Século XXI”, para sugerir que reflitamos sobre como diminuir a riqueza da parcela de 1% que domina 50% de tudo o que a humanidade acumulou como estratégia para reduzir a pobreza no mundo. Em síntese: ao invés de reduzir a pobreza, por que não reduzir a riqueza? Falou do salto que os emergentes precisam dar para superar o chute na escada que os ricos deram para se proteger contra futuros concorrentes e reforçou a ironia que é a economia mundial funcionar em função do dólar, porque a cultura monetária dos povos na atualidade está fortemente condicionada ao dólar. E quem ousa pensar diferente? Os Estados Unidos não precisam mais de lastro em ouro para emitir bilhões em papel moeda. Imagine se o Brasil, em crise, imprimisse reais! O mundo viria abaixo!

Com otimismo e esperança, Carlos Lopes terminou evocando Nelson Mandela para reforçar que o impossível pode ficar ainda mais difícil se não dermos o primeiro passo. Simples assim! Valeu, Carlos Lopes! Que os professores falem dessa magistral palestra para seus alunos, e que os parlamentares do Acre usem a tribuna para divulga-la. Estamos todos carentes de bons argumentos!

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* Aníbal Diniz, 52, jornalista, graduado em História pela UFAC, foi diretor de jornalismo da TV Gazeta (1990 – 1992) assessor da Prefeitura de Rio Branco na gestão Jorge Viana (1993 – 1996), assessor e secretário de comunicação do Governo do Acre nas administrações Jorge Viana e Binho Marques (1999 – 2010) e senador pelo PT- Acre (Dez/2010 – Jan/2015), assessor da Liderança do Governo no Congresso Nacional entre março e outubro de 2015 e atual integrante do Conselho Diretor da Agência Nacional de Telecomunicações - ANATEL.  

 

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