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Geral Por Talita Montysuma

O tempo não para

Como em um sonho, acordo e agora passo a me ouvir, não sei quanto tempo tenho.

02/05/2022 às 11h00
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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O tempo não para

Por Talita Montysuma

Essa semana começou com a maior sessão de psicanálise que a cadeira de um otorrinolaringologista poderia presenciar. Sim, fiz uma constatação sobre mim fora do divã na minha Ana-lista. Sim, estou me curando de uma sinusite e rinite aguda, mas o que chamou a minha atenção foi o fato de que não eram as minhas narinas e seios da face inflamados, mas sim meus ouvidos.

Pasmem vocês que a coisa que mais me incomodava era a sensação de que meus ouvidos estavam cheios e que, ao fazer o exame, a única coisa que estava limpa e saudável eram justamente os meus ouvidos, pois de resto, só histamínicos e corticoides para dar um jeito.

Imaginem que automaticamente associei ao fato de que nunca descansei realmente meus ouvidos e minha cabeça e quase nunca tiro um tempo para me divertir etc., e isso me fez pensar em uma sessão de análise onde “e” “analisande”, ao chegar no carro depois de uma sessão sobre o tempo – na verdade a falta de tempo, de não podermos voltar no tempo – viu a foto de sua playlist musical onde a primeira música era “tempos modernos” do Lulu. O inconsciente tem dessas coisas.

E pensando nisso agora para esse texto, meus ouvidos cheios e o tempo, o aniversário de minha irmã, um ano da morte de um primo, senti um peso enorme sobre mim, um peso do tempo, a vida que passa e as vezes a gente não percebe no discurso “trabalhem enquanto eles dormem”. No tempo que a gente perde não vendo o filho crescer, uma flor nascer, uma paquera, a beleza de um poema, do encontro com os outros. Penso na falta de tempo que temos de não ouvir a beleza da vida, meus ouvidos estão cansados porque parei de ouvir as belezas, diria que quase um burnout de viver.

E o tempo que para? Já pensaram no tempo que para? Para em momentos de uma conversa com amigos em volta de uma mesa com cerveja enquanto fazem guioza, dando risada, onde toda conversa neurótica acaba em uma gargalhada porque alguém fez uma piada de duplo sentido ou a parada do tempo conversando com a pessoa que você está paquerando.

A conversa com alguém interessante é a melhor coisa para a gente esticar o tempo, aquela conversa que quase íntima, quase engraçada, quase sexy, pequenos toques, falas tão perto que são um quase beijo, onde a balada vai acabando e o dia nascendo e o tempo para naquele instante.

Meus ouvidos estão cheios porque o meu tempo escapou, não me ouvi, pensei no tempo dos outros e perdi do meu, esqueci do meu tempo, e a pergunta que faço é: quanto tempo eu tenho? Dá tempo de virar o jogo da vida? Ou de começar de novo? Putz, pode ser fim do tempo?

Como em um sonho, acordo e agora passo a me ouvir, não sei quanto tempo tenho. Não sei se verei tudo que quero ver, ou amar e ser amada como imaginei, passo a ver a vida, mas não vê-la passar como na música “A banda”, eu quero é botar meu bloco na rua, manejar meu tempo com sabedoria para que no contra-tempo da vida, siga vendo a beleza e os amores que o tempo me permitir.

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