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Cultura Por Edir Marques

O “CORONEL” DE CUECA

De um pulo, o “coronel” Quincas levantou-se da rede, vestiu uma camisa e com mais uns dois amigos, todos biritados, zarpou para a delegacia!

20/03/2022 às 13h44 Atualizada em 20/03/2022 às 13h48
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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(Foto ilustração, deputado Barreto Pinto que foi cassado por quebra de decoro ao pousar de cueca samba canção)
(Foto ilustração, deputado Barreto Pinto que foi cassado por quebra de decoro ao pousar de cueca samba canção)

Por Edir Figueira Marques

É preciso deixar claro que o título de coronel, aqui empregado, não se refere à patente militar.        

Pesquisando a história do Brasil, verificamos, no canal MUNDO EDUCAÇÃO, no site da UOL, que a origem dos coronéis que exerciam o seu domínio local está no período imperial, durante o século XIX. Com a criação da Guarda Nacional, os latifundiários aliados do governo central recebiam o título de coronel para que exercessem o seu domínio em sua região e evitassem qualquer tipo de revolta.

Para o povo, o título de “coronel” e de outras patentes da escala hierárquica se equivaliam a títulos nobiliárquicos que impunham uma relação de dependência e medo com aqueles que, em suma, passaram a deter o poder de mando em sua região, determinando as regras, com seus prêmios e castigos. Daí derivou-se o clientelismo e o consequente “voto de cabresto”, cuja tentativa de extinção se deu com a “revolução de 1930, por Getúlio Vargas.

No decorrer da história, por analogia, todos os ricaços comerciantes, fazendeiros, industriais passaram a ser chamados de “coronel”, particularmente no nordeste. Com o tempo, foi-se deteriorando o título tão respeitável e estas pessoas que detinham certa liderança, poder e riqueza passaram a ser chamadas, pejorativamente, de “coronel de barranco”!

Com este esclarecimento e situados no tempo histórico, vamos entender melhor a história que vou contar.

Morava no Rio de Janeiro, mais especificamente, em Copacabana, um promissor empresário, que, após o expediente em seu escritório no centro da cidade, reunia-se com seus amigos cearenses.

É claro que era cercado de amigos com quem dividia farras homéricas. Dizem que o passaporte para as noitadas que patrocinava era um litro de wisky debaixo do braço. Sua fama foi crescendo e com ela o apelido de “coronel Quincas” se sedimentou e assim ficou conhecido por todos.

Numa dessas noitadas, um dos amigos saiu já bastante alcoolizado em direção à Ipanema e, como era de se prever, bateu o carro. A polícia chega e o leva para a delegacia.

O telefone toca na casa do “coronel” informando-o que seu amigo fora detido na delegacia de Copacabana.

Ia esquecendo de registrar um detalhe importante nesta narrativa: o “coronel”, como bom nordestino que era, adorava uma rede e, sem qualquer constrangimento, recebia seus companheiros de farra, do jeito que sempre estava em sua casa, de cuecas samba-canção.

De um pulo, o “coronel” Quincas levantou-se da rede, vestiu uma camisa e com mais uns dois amigos, todos biritados, zarpou para a delegacia!

De chofre, também os três foram presos por dirigirem bêbados e o motorista sem documentos e, pasmem, só de cueca!

A notícia se espalhou entre aqueles que ainda estavam desfrutando da noite de boemia no apartamento do dito “coronel”. Acorreram todos à delegacia policial que, a esta altura, se encontrava apinhada de curiosos.

Como os que chegaram para socorrer o anfitrião estavam embriagados, os policiais impediram o acesso de mais outro “magote” de bebuns.

Um deles, “menos chumbado” ousou explicar, alterando a voz:

- Viemos ver o que aconteceu com o “coronel” Quincas!

Na época da ditadura militar no Brasil, não se questionavam as autoridades e muito menos quem tinha patente de oficial ou usava fardas engalanadas, a partir de uma estrela no ombro. Ressuscitava-se o temor popular que estava latente na memória social.

O policial de plantão se assustou:

- Como é? Quem é coronel aqui?

O amigo mais ousado esclareceu:

- O que está de cueca!

Nisso, o policial mandou todos aguardarem. Era de madrugada. Falou com o delegado, que, apavorado, repreendeu o policial:

- Solte o coronel, imediatamente!

E, cheio de mesuras, se desculpou com o pretenso oficial:

- Foi sem minha ordem! Como se prende um coronel?

Todo solícito, entregou uma toalha para que o tal “coronel” se enrolasse e libertou a chusma de baderneiros envolvidos nesta pândega.

Curados da carraspana, depois desse susto, saíram da delegacia, dando vivas ao “coronel” Quincas e voltaram ao apartamento para comemorar o ocorrido, pois, por um triz, poderiam estar dormindo no xadrez!

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