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Um adeus aos Diógenes

Um foi noticiado na mídia local, que foi a morte do Renan, conhecido como Nego Bau, o outro foi a morte do Valério

21/01/2022 às 14h23 Atualizada em 22/01/2022 às 17h44
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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Essa semana fui arrebatada com duas notícias muito tristes para mim, que foram a morte de dois amigos que fazia muito tempo que não via. Um foi noticiado na mídia local, que foi a morte do Renan, conhecido como Nego Bau, o outro foi a morte do Valério.

Essas duas figuras perambulavam pelas ruas de Rio Branco e vivam em situação de vulnerabilidade, situação que os deixavam à margem social, invisíveis aos olhos da população e Estado.

Renan cresceu no fim da Cohab do Bosque, onde nasci e me criei, já na baixa da colina, e minha mãe conta que quando a mãe dele morreu ele ficou sendo cuidado pela irmã mais velha. Se não me engano são 7 ou 8 filhos, onde ele era o mais novo, e viviam em situação de muita vulnerabilidade.

Me lembro de um irmão dele que também era psiquiátrico (não consigo lembrar seu nome), mas ele desenhava e sabia todos os números das linhas e rotas de ônibus que circulavam em Rio Branco, ao meio dia ele esperava sentado na parada final da Cohab para passear pela cidade de ônibus.

“Ball”, o apelido de Renan quando ele era jogador de futebol. Esse era seu sonho, ser jogador de futebol. Chegou a fazer teste fora do Acre, ele e outros meninos da rua, ele, meu irmão e outros garotos da rua ficavam na esquina de casa conversando e dando risada até a madrugada, apelidada por eles de esquina da alegria.

Me lembro da vez que Renan teve seu primeiro surto: meu irmão o levou em casa para conversar comigo, pois todo mundo estava assustado, ele devia ter uns 20 anos, eu 17,  ele dizia que Deus estava invadindo o pensamento dele e que estava tendo revelações do fim do mundo, segurei sua mão e disse que estava tudo bem e tudo iria dar certo. A crise passou, ele ficou melhor e disse que eu iria casar com ele, que Deus também tinha dito isso. Seu olhar era estático e assustado, me lembro de pensar que naquele dia tudo iria mudar na vida dele. Naquele dia ele começou a se transformar em Nego Bau.

A esquina da alegria aos poucos vai se metamorfoseando em esquina do silêncio, uns casaram, outros se mudaram somente o Bau permanecia ali, parado no tempo que se foi. Quando tinha fome batia na casa da minha mãe e gritava “mãe Zezé! Mãe Zezé! É o Bau, tô com fome!”, minha mãe abria a porta, dava comida, cigarro e ele ia embora, cada vez mais inconsciente a céu aberto.

Já Valério era filho adotivo de uma figura famosa de Rio Branco, era letrado, tinha faculdade, fazia mapa astral, educado e elegante, tinha porte de príncipe, muito inteligente, voz baixa e serena e um olhar triste. Sempre com conversa interessante e, a seu modo, engraçada. Sempre que minha mãe ficava doente e ele ficava sabendo, ia cuidar dela.

Não conheci Valério nos seus tempos áureos, o conheci já em situação vulnerável. Um dia chego em casa e minha mãe está no telefone falando com alguém sobre ele, alguma coisa do tipo “Fiquei sabendo que o Valério está aqui e está dormindo embaixo de marquise, isso é inadmissível!”

No outro dia chego em casa e me deparo um uma figura extremamente magra, olhos tristes com um misto de medo e vergonha, assustado, sujo, descabelado, maltrapilho, desdentado, machucado, com tiques, sentado a mesa com gestos delicados.

Naquele momento, um misto de fascinação e inquietação. Minha mãe me apresentou a ele e ele pediu desculpas por não estar limpo à mesa, eu só sorri e almoçamos. Como sempre, a minha mãe simplesmente olhou pra mim e para meus irmão e disse: “A partir de hoje o Valério vai morar aqui em casa. Lucas, ele vai dormir no seu quarto!” Sim, minha mãe só comunicava suas decisões.

E assim foi, ele saiu de casa sadio, mais gordinho, empregado e com sua dignidade reestabelecida, mas depois de um tempo Valério voltou a situação de rua em decorrência do uso de álcool e outras drogas. Última vez que o vi estava casado vivendo em situação de hiper vulnerabilidade em um evento do movimento da população de rua na Assembleia.

Lembrando de Bau e Valério não consigo deixar de lembrar de Diógenes, o filósofo cínico que pede para Alexandre (O Grande) sair da frente do seu Sol. Eles eram assim, saiam perambulando pelas ruas, um com seus olhos tristes e ar de príncipe e outro com olhos a céu aberto atrás do grande homem.

São duas pessoas que o peso de viver os fez, a seu modo, romper com a imagem fantasia do pacto social e vão viver o Real, foram violentados pelo sistema assim como Diógenes, expulso de Sinope por conta de seu pai. Eram pessoas que não faziam mal a ninguém, mas causavam medo nas pessoas, pois refletiam tudo que tememos.

Adeus, meus Diógenes, grata por todos os ensinamentos hoje e sempre, ninguém mais irá tapar vossos Sóis.

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