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Geral Por Talita Montysuma

O amor ao odiar

Só podemos transformar as coisas quando enfrentamos a paixão pela ignorância de frente

07/01/2022 14h39
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
O amor ao odiar

Por Talita Motysuma

Chegamos em 2022 e ainda reverbera na minha cabeça a música da Simone “então é natal, o que você fez?”, mas a versão da minha cabeça fica “então é natal e quem você odiou?” já é sabido que ando com esse tema em meu pensamento já a muitos textos.

É que uma coisa que a minha análise me permitiu foi poder sentir esse desafeto com menos culpa, me permitiu pensar sobre meus ódios cotidianos e fundamentais, a gente aprende desde muito cedo a conter o que a gente sente, sobretudo algo que moralmente acreditamos ser “ruim”.

A formação do ser é sempre uma fixação da fase anal, segure o choro, segure o amor, segure o medo, segure a felicidade, segure o ódio, sempre segurando alguma coisa, quase nunca soltamos nada, só em momentos de chistes e atos falhos no dia a dia ou pela via do sintoma.

Nunca há uma brecha para se pensar a função do ódio mesmo ele sendo um afeto fundamental para a nossa existência, haja a vista Freud em Totem e Tabu (1913), onde o bom velhinho fundamenta a lei social pela via do parricídio, Gori (2006) diz assim sobre a descoberta de Freud, que ele chama de ódio invejoso: “signo de uma rivalidade com o intruso cuja função e predicação são asseguradas pela figura paterna. O ódio do pai, a rivalidade odiosa com o pai, garante uma identificação cuja significação simbólica provoca os remorsos melancólicos, e, para o sujeito, a origem da moral consiste em se interditar aquilo que antes o pai lhe interditava. É uma das concepções psicanalíticas da gênese do Supereu enquanto instância deduzida da dialética edipiana”.

Esse ódio que fere o nosso narcisismo, nos coloca em uma posição infantil, a criança que se ira com a chegada de um irmãozinhe, aquela que na neurose obsessiva se mostra ambivalente, e por ser infantil, nos coloca em uma posição sádica, masoquista e polimorfa, onde o exemplo melhor seria o homem dos ratos, estudo de caso de Freud de 1909. Trata de um neurótico obsessivo que, ao revelar seu amor excessivo ao pai, acaba revelando seu ódio em forma de sintoma de autopunição, lembrando que isso tudo operado, regulado, avaliado e carimbado pelo inconsciente.

A outra forma de ódio que Gari se refere e que Freud conceitua é o ódio do ser, que o bom velhinho chama de Pulsão de morte. Sim, já falei aqui sobre teoria de 1915 que diz que estamos sempre a um passo de uma autodestruição ou a destruição do outro e geralmente é de alguém que amamos, sim, mesmo que seja a gente mesmo refletido em outra pessoa.

Gari diz que o ódio é do real, do concreto que nunca temos dúvidas, do objeto de ódio, mas no amor a dúvida sempre existirá. Será que o amo? Che voui? – “No amor e na palavra ninguém tem certeza, e é essa a razão pela qual o homem partilha com seus semelhantes tão bem o pão da verdade quanto o da mentira. Essa dúvida, essa perturbação, essa incerteza, o ódio não as quer e por isso as recusa como impróprias como seu objeto.” (Gari, 2006).

Por esquecermos que somos seres “odiantes” que precisamos, por exemplo, do ódio quando terminamos um relacionamento ou quando perdemos um ente querido. Sim, para que possamos suportar perda de objeto precisamos odiá-lo, que caso isso não ocorra, balizado pela culpa, vira ódio melancólico. Que a culpa de odiar o outro é tanta que o sujeito se pune de forma feroz e cruel.

Ainda tem o amor e ódio e a paixão pela ignorância de Lacan, pois tanto o amor quanto o ódio partem também da ordem do simbólico, veja o que acontece com Édipo, seu pecado não é ter se casado com sua mãe, mas sim sua sede em saber sua história, a fantasia de saber quem ele era se foi e só ficou a realidade.

Sendo assim, desafio os leitores que nesse ano de 2022 ao invés de disfarçar o ódio com o gratiluz da positividade tóxica, pense e reflita sobre sua condição de “odiante”, porque só podemos transformar as coisas quando enfrentamos a paixão pela ignorância de frente.

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Talita Montysuma
Sobre Talita Montysuma
Psicóloga, especialista em Clínica Psicanalítica.
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Atualizado às 05h09 - Fonte: Climatempo
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