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O amor só existe no verbo?

Conseguem ver até aqui como o amor não vem sozinho? O amor não é só amor? Há sempre um ódio operando em contra partida

24/12/2021 às 18h24
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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O amor só existe no verbo?

Por Talita Montysuma

É natal, e de presente lanço a quem tira seu tempo para ler os devaneios que ousadamente insisto em dividir com qual-o-quer, a pergunta: e se a existência do amor só se faz através do verbo, na instância da letra? No discurso do mestre, onde a verdade está no suposto saber que tenho sobre o outro ou no histérico, quem tem a verdade sobre mim é o outro?

Essa dúvida nasce em mim sobre a régia do hiato linguístico entre o que sinto, o que vejo e penso, e como tudo aqui nesse espaço é pra mim experimental, começo, para talvez desespero de meus familiares, pela minha relação de luto com meu espírito natalino, que é assim a muitos anos.

Diria que começou por volta dos meus 12 anos, e não foi por descobrir que Papai Noel não existe – até porque minha mãe foi comunista e desde de pequena o natal é mais um produto a ser consumido que fraternidade entre as pessoas – mas sim quando voltei para Rio Branco e passei meu primeiro natal sem o, como diria Maria Homem, caldeirão de loucura que era a casa de minha avó.

Eu morava em Araraquara, interior de São Paulo, e todo ano passávamos em São José do Rio Preto/SP na casa de minha avó. Ali como disse o milagre amor quase acontecia, pois minha avó, como uma maestrina habilidosa, dava o tom do caos. Entre mexericos, segredos, revelações e intrigas as crianças brincavam como se não houvesse amanhã, todos regados de muita comida como uma boa casa ítalo-portuguesa com toques ácidos do humor alemão.

Já de saída vos digo entre uma irmã falar da outra, meu avô falar dos genros, os genros falarem dos genros, minha mãe falar de todos, minha mãe ser o assunto de todos, sogra falando mal de sogra, cunhada falando de cunhada, filha falando de mãe, mãe falando de filho, no intervalo disso a meia-noite no feliz natal, onde todos se abraçam e desejam votos de amor, ali o amor acontece num milésimo de segundo, o instante para e o amor acontece e depois tudo volta ao normal.

Seguindo a trilha do amor parental, esse laço que sempre vira nó que prende e muitas vezes estrangula. Sim, ser mãe é sempre estar a um passo de engolir sua cria, é um amor construído por lutos: o luto do corpo da mãe que se modifica com a barriga que cresce e vai deixando marcas, da saúde mental distorcida pelas paranoias neuróticas intensificadas pelos hormônios liberados pela gravides, o luto do parto e corte do cordão umbilical, o desmame, o primeiro dia de aula, o primeiro amor do filho, todos esses acontecimentos colocam a mãe em uma linha tênue entre amar e anular sua cria para que ela nunca lhe abandone e como disse Klein, uma psicanalista infantil, o mesmo peito pode ser bom como pode ser o peito mau.

Assim como o filho, que seu primeiro amor absoluto e motivo de gozo e prazer é a mãe e seu corpo através do peito na fase oral e tem que renunciar esse amor mais tarde para não ter que destruir ou ser destruído por seu pai, na fase anal ao testar seus limites na tentativa de construção do Ego, volta sua ira ao seu objeto de amor que é a mãe e pai com suas birras e ataques. Conseguem ver até aqui como o amor não vem sozinho? O amor não é só amor? Há sempre um ódio operando em contra partida.

Saindo desse imbróglio, mas caindo em outro, pois o amor está sempre nos tirando e nos colocando em imbróglios, caímos no amor cortes, que Octaviano Paz escreve, e está sobre o alicerce de três pontos: o amor, o erótico e o sexo e acredito que ele tem razão em relação a isso, pois quando estamos apaixonados é o erótico que está, a princípio, operando e dando forma ao desejo, isso quer dizer que iremos fetichizar o outro, aquele que ali eu desejo é aquele que está no meu imaginário.

Quando os imaginários se encontram temos o coito, onde a manipulação do corpo do outro ainda pautado no imaginário do que acreditamos que o outro quer e deseja ser tocado, onde os orifícios do corpo viram parque de diversão, e Paz diz que é o erotismo que regula vida e morte, e faz todo sentido se pensarmos sobre as teorias das pulsões de Freud.

E meu inconsciente a céu aberto talvez diga que o amor é esse silêncio e som erotismo e sexo a psiquê e eros, o fetiche que faço do desejo e corpo do outro que reverbera no meu corpo que acaba na frase lacaniana “dar o que não se tem, sim o grande desafio do amor é justamente esse sustentar o vazio que o outro tem que nos demanda sempre “che voui?” – O que quer?”.

Miller diz em uma entrevista que “Acertou! Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cômico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade.” 

Sobre a pergunta do início acredito sim, o amor perfeito, sem dor, sem o atravessamento da sombra do humano, o feliz para sempre, o não cobiçarei o amor do próximo, só irá existir no verbo, na poesia, no conto de fadas, na arte e fantasia, sendo assim, sigamos amando como conseguirmos.

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