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Cultura Por Edir Marques

O menino do catecismo

Na hora da consagração, ao ajoelhar-se, os colegas do banco de trás perceberam aqueles dois buracos nos sapatos, ainda mais destacados pelo branco da cartolina

25/12/2021 00h00
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
Igreja Prelatícia de São Peregrino, Sena Madureira, AC. Foto: autor desconhecido
Igreja Prelatícia de São Peregrino, Sena Madureira, AC. Foto: autor desconhecido

Por Edir Figueira Marques

Era o décimo rebento de uma prole de quatorze filhos, cujo sustento, como em tantas famílias, decorria do mísero salário de professora federal de uma longínqua cidadezinha acreana, Sena Madureira. No entanto, a educação dos meninos era rigorosa! Primava pela moral cristã, reforçada pelo ensino religioso, ministrado na paróquia, todos os sábados, pela beata Dona Beija, que de tudo fazia na igreja.

Todos os filhos, na época adequada, frequentavam o catecismo, que, obrigatoriamente, precedia o solene momento da primeira comunhão.

Eram seis meses de aulas em que se inculcava nas cabecinhas inocentes a formação dos católicos, com a memorização das orações, mandamentos, história sagrada, rituais e, sobretudo, despertando em seus corações o desejo de receber Jesus, de serem o relicário de pureza do filho de Deus. Ao final do curso, as crianças, em geral entre 8 a 11 anos de idade, passavam por arguições para serem consideradas aptas a comungar.

Os catecúmenos saíam do curso como fervorosos aspirantes a protagonistas da grande e solene festa religiosa, evento concorrido e tão esperado na cidade, com a presença das autoridades que os prestigiavam.

Todas as crianças vestiam-se de branco. Os meninos com calças compridas e camisas de punho, sapatos de couro e, no braço direito, ostentavam um vistoso adereço de um cálice pintado em amarelo ouro, com a hóstia sagrada e a imagem de Jesus, obra da prendada moça, filha do Seu Hipólito.

Era a glória! Tinham lugar destacado na igreja, onde entravam em dupla, todos muito contritos.

Mauro, embora um dos mais novos da turma, foi aprovado e correu, alegre, orgulhoso e alvoroçado, para dar a notícia a sua mãe.

No entanto, sua genitora, angustiada e entristecida, esfriou seu ânimo, sendo, premida pelas circunstâncias, obrigada a negar-lhe sua participação.

- Meu filho Mauro, temo ter que dizer-lhe que, infelizmente, você não poderá fazer a primeira comunhão, este ano. As despesas são grandes: além da indumentária, que é dispendiosa, ainda é preciso colaborar com o café da manhã que será servido após a cerimônia.

Cabisbaixo, triste, ele concordou, compreendendo todo o esforço e sacrifício que sua mãe fazia para dar-lhes o indispensável à sobrevivência e à educação. Ele não tinha sapatos de couro. Seus sapatos eram de “seringa”, feitos de látex da seringueira. Sua vestimenta era um short ou, no máximo, uma calça curta de suspensório, com uma camiseta surrada, roupas passadas de um filho para outro, à medida que ficavam pequenas para os irmãos mais velhos.

Conformou-se! Ao reiniciar as aulas de catecismo da nova turma, tornou a matricular-se, por mais seis meses.

Chegada a época de encerramento do curso, Mauro, mais que preparado, voltou a comunicar à mãe a data da primeira comunhão. Professora Bezita consultou as finanças e, desolada, negou ao amado filho, mais uma vez, a realização de seu sonho de criança inocente.

Ele voltou a inscrever-se, no ano seguinte, na turma de catecismo. Mais “taludinho”, garoto muito esperto, planejou tudo. Agora faria as coisas de seu jeito, sem colocar a mãe na difícil e sofrida situação de refletir sobre as reais condições para a tomada de decisão que exigiria enorme sacrifício, fosse de arcar com as despesas extras, fosse ter que negar, pela terceira vez, ao filho querido, aquele pedido a que todas as crianças aspiravam, legitimamente! 

Às vésperas do grande dia, Mauro colocou seu plano em ação. Pediu ao irmão Nilton, com mais sete anos que ele, já rapazinho, que lhe emprestasse a calça comprida branca. Solicitou também que lhe cedesse o sapato de couro, velho embora, e que era uns dois números maior. A camisa foi do mano João, mais comprido que ele, pois todos eram mais velhos. Os irmãos argumentaram contra, mas acabaram por concordar, diante do pequeno que lhes rogava: “quero tanto ter Jesus no meu coração! Há três anos espero por este momento”!

Para o adereço do braço, correu à casa do Seu Hipólito e chorou diante da artista que lhe prestasse este favor já que não tinha com que pagar! A moça lembrou-se, então, de tantos favores que a mãe de Mauro prestara à família e disse que não poderia negar-lhe o pedido, até porque era para um fim tão nobre.

No dia anterior, foi experimentar o traje completo: a calça, além de comprida, o que resolveu com algumas dobras na bainha, era bastante larga, amarrando-a com o cinto, deixando-a toda franzida. A camisa também ficou “foló”, mas, por dentro da calça, deu para disfarçar. Foi engraxar os sapatos e deparou-se com um buraco em cada sola. Quem não se lembra que, antigamente, se usavam os sapatos até precisarem de meia sola? Não haveria, porém, tempo para este conserto. Mas ele não se deu por achado! Recortou vários pedaços de cartolina branca e forrou os sapatos por dentro. Resolvido!

Dia seguinte, bem cedinho, todo enfatiotado, sem avisar à mamãe, se dirigiu à igreja para a cerimônia faustosa. Levava uma lata de leite condensado, achada na cozinha, como contribuição para o café da manhã.

Colocou-se entre seus coleguinhas, para não ficar tão evidente. Na hora da consagração, ao ajoelhar-se, os colegas do banco de trás perceberam aqueles dois buracos nos sapatos, ainda mais destacados pelo branco da cartolina.

Pela primeira vez, sofreu bulling dos seus companheiros! Durante o café da manhã, que era o coroamento da festa, volta e meia chegava um colega e, com um risinho de mofa, lhe pedia para ver o modelo de seus sapatos.

E da mãe, quando soube da sua artimanha, recebeu uma reprimenda, pelo misto de vergonha e sentimento de culpa que sentira, ao mesmo tempo em que, no íntimo, se orgulhava da força de vontade e da iniciativa do filho. Soube, daquele dia em diante, que o menino Mauro nunca se apertaria diante das dificuldades da vida e que transporia cada obstáculo que se lhe deparasse à frente!

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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