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Cultura Por Edir Marques

O prefeito e o guarda-chuva

Ao sair da farmácia, desabou o aguaceiro e, apressado, o dito cujo abriu, rapidamente, o seu indefectível guarda-chuva

21/12/2021 14h59 Atualizada há 1 mês
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
O prefeito e o guarda-chuva

Por Edir Figueira Marques

Antigamente, não era diferente de hoje. Pessoas há, muito honestas, mas em geral são os espertos que se aproveitam da política para ascender financeiramente, não pelo esforço de seu trabalho, mas pela mordomia e benesses do cargo e uso do poder em benefício próprio.

É possível que, no passado, houvesse mais facilidade para “meter a mão na cumbuca”, pois a fiscalização, praticamente, não existia. Mas acredito que os valores desviados eram insignificantes, diante do que tem ocorrido na atualidade, em que pese toda a rigidez da legislação e a sofisticação das prestações de conta e dos órgãos de controle vigentes. Em contrapartida, também, se aprimorou a tática da apropriação indébita, embora haja os que carreguem a “bufunfa” na cueca ou que “abolentem” a sala do apartamento com malas de dinheiro.

No século passado, a falcatrua com o dinheiro público era mais simples, pelo menos em algumas cidades da Amazônia, onde nem banco existia. Em geral, o prefeito se deslocava até a capital, por via fluvial, em batelão, demorando cerca de dois dias, para sacar o crédito vindo de verba federal e transportá-la em malotes, a fim de pagar os servidores municipais, que, em geral, recebiam a cada três meses.

Fala-se que, numa determinada cidade, o prefeito interino, que mal assinava o nome, embora semianalfabeto, quis ludibriar o povo, nos poucos meses em que exerceu o mandato “tampão”, aproveitando-se da oportunidade e “arregalando os olhos”, diante daquele montão de dinheiro. Não hesitou: surrupiou uma parte polpuda do malote destinado ao município e colocou-a dentro do guarda-chuva, do qual não se apartava, fizesse chuva ou sol. 

Ao sair da prefeitura, no caminho, parou para uma prosa com o dono da farmácia, situada na avenida principal e onde circulavam muitos transeuntes ao final do expediente, em retorno a seus lares. A conversa ia animada com o proprietário, que era figura de destaque no meio político. Lá pelas tantas, como é comum nas tardes amazônicas, o tempo mudou e diante da ameaça de chuva forte, o prefeito se despediu. Ao sair da farmácia, desabou o aguaceiro e, apressado, o dito cujo abriu, rapidamente, o seu indefectível guarda-chuva. Qual não foi o espanto de quem estava passando e da freguesia que se protegia no interior da farmácia! Choveu dinheiro por todos os lados, espalhando-se pelo chão e grudando-se nas poças d’água.

O prefeito, avexado, nem se encabulou. Pediu uma sacola e catou, com dificuldade, tim-tim por tim-tim, todas as notas e, encharcado até os ossos, saiu correndo para casa.

No dia seguinte, ao raiar do sol, lá estava ele estendendo, na grama de seu jardim, uma a uma, as valiosas cédulas para secar, pois, segundo contam, iria investir e fazer render o produto delituoso na compra de castanha e couro de animais silvestres, de que era comerciante!

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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