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Geral Por Talita Montysuma

Aos amigos...

A amizade é o único amor que não morre (frase da série “todas as mulheres do mundo)!

10/12/2021 às 14h06 Atualizada em 10/12/2021 às 14h14
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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"Pântano da tristeza" do filme “História sem fim". Imagem divulgação.

Por Talita Montysuma

Essa semana vi tanta coisa, ouvi tanta coisa que as vezes o mundo fica cinza, vai perdendo a cor, a luz... quando fico assim sempre lembro (spoiler da minha idade) de uma cena do filme História sem fim, de 1984, onde o guerreiro Atreyu atravessa o “Pântano da tristeza” lá, onde tudo é tons de cinza, em solo que – em bom acreanês chamamos de lama-gulosa – aos poucos vai nos afundando até sermos engolidos.

Curiosamente nesse filme, o guerreiro, que na minha leitura hoje seria o alterego de Bastian, um menino que está vivendo o luto de perder a mãe, tem que atravessar esse vale da sombra e da morte para evitar que seu mundo chamado “fantasia” não seja engolido pelo “nada”. Maravilhoso isso né? Já pensaram que vida é justamente isso? Um atravessar de pântanos da tristeza pra poder não deixar que o nada tome conta?

Bem, estava às voltas com o meu pântano da tristeza, mas calma! Não criemos pânico! A contemplação e pensar sobre a vida e morte é de uma forma ou outra atravessar esse pântano que só existe porque somos sujeitos barrados ($), essa inscrição que nos primórdios da nossa existência nos é imposto quando o complexo de Édipo é “bem-sucedido” – num é totalmente bem sucessedido – com a inscrição do que Lacan irá chamar de o nome-do-pai.

Essa inscrição linguística introduzida pela função materna que nos delimita corpo psíquico e corpo carne, nos faz borda, isso significa que por mais que eu deseje tudo, nunca terei tudo – esse é o grande tormento do neurótico, a fantasia de controle sobre as coisas e o mundo – grande parte do nosso sofrimento está na nossa não capacidade de entender nossos barramentos.

Tive esses dias um sonho que me impõe claramente minha condição de sujeita barrada ($) que é mais ou menos assim – “estava indo fazer uma prova de ENEM juntamente a minha filha em que, em primeiro momento, estava no lugar errado da prova e em segundo momento, fui barrada por que eu estava fora do tempo. Minha filha entra pra fazer a prova eu não” – “Isso” foi dias antes do meu aniversário, podemos interpretar sobre a angustia psíquica acumulada diante do inevitável, que é o processo de envelhecer.

Sobre esse caminhar sem caminho, como diz o poema de Machado Ruiz, um poeta modernista espanhol: Caminhante no hay caminho. Nascemos sem saber o porque e pra que estamos aqui e com uma única verdade absoluta – a que vamos um dia e hora morrermos. E é entre o tédio do nascimento e a espera de que algo maravilhoso aconteça que a vida acontece e não percebemos.

E despretensiosamente ou (de)negadamente não percebemos a morte acontecendo todos os dias, seja ela no corpo, no campo do Real com a velhice, doença, amputações, o corpo que não respira mais como também a morte simbólica, e penso que essa é uma das mais devastadoras, só quem tem o narcisismo agonizante pela flechada mal-dita do cupido que saberá o que é comprar alvejante, mas descobrir que ele só limpar a sujeira e não limpar o amor.

Descobrir que não somos o suficiente para o outro, mesmo quando a traição vem dos filhos, que outrora éramos seu único objeto de desejo, e a vida vai acontecendo e ficamos desinteressantes (ainda bem), de ver a mãe, outrora seu significante de poder, e hoje se deparar com a figura frágil em consequência do tempo, a friendzone, a história de amor que só aconteceu na nossa cabeça (fanfic que chama?).

Mas para alguns poucos, aqueles que são muito corajosos, aqueles que são capazes de demostrar afetos, são sinceros consigo, conseguem criar laços de amor que estão para além do tesão do erótico, ter cumplicidade e lealdade para com o outro que o tempo não consegue desfazer e isso a gente raramente chama pelo seu nome – amizade –, aquilo que está para além do nosso narcisismo primário que aceita hiato do tempo e que a querência está posta.

A amizade é o único amor que não morre (frase da série “todas as mulheres do mundo)! Caminhante no hay caminho e é solitário só a gente sabe a dor e a delícia de ser o que é, mas ter amigos para dar sustento quando a travessia pelo pântano da tristeza começa a nos engolir... e a amizade que nomeio permeia todas as relações e laços que ajuda a caminha ser menos dura e triste são os amigos/amiges que quando as vezes o tempo para, nos ajuda a dar corda e seguir.

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