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Cultura Conto

A pescaria foi pro brejo

Recorreram a um cipó que estenderam ao longo do corpo, do rabo à cabeça, enrolaram o cipó que depois seria aferido com a trena

14/11/2021 00h00
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
Assombrados, viram pela primeira vez, um enorme jacaré açu ... Foto: Cassiano Marques de Oliveira
Assombrados, viram pela primeira vez, um enorme jacaré açu ... Foto: Cassiano Marques de Oliveira

Por Edir Figueira Marques

Uma das boas distrações de fim de semana, em especial dos homens de nossa cidade, é reunir um grupo afim e sair para pescar em lagos e igarapés que existem em abundância na região amazônica.

Há as turmas já consolidadas, experientes, que possuem todos os apetrechos e equipamentos para aventuras mais ambiciosas, distantes, que se instalam nas praias, formadas à margem dos rios em época de seca, ou em clareiras na mata, acampando em barracas ou estendendo-se em redes armadas nos galhos das árvores, protegidas com o mosquiteiro de filó. Não pode faltar o rancho, em que o principal item é a cachaça da boa.

Mas há também os principiantes, a rapaziada que lota uma camionete, munidos de varas de pescar, facões, espingardas e revólver. Estes vão e voltam no mesmo dia. Fazem madrugada para se deslocar até um rio ou lago mais próximo.

É sobre um grupo de jovens que se projetam nos pais, exímios pescadores, que querem testar se são capazes de também se aventurarem, se afirmando como homens independentes, aptos a enfrentar o perigo da floresta e as surpresas dos lagos profundos, que vou contar esta história!

Eram cinco grandes amigos de infância que, atingida a maioridade, abasteceram a camionete Pampa e saíram bem cedo, ainda escuro, para sua primeira pescaria no rio Antimary, na estrada BR-364, trecho Rio Branco/Sena Madureira.

Como eram pescadores de primeira viagem, contrataram um guia para orientá-los no acesso ao trecho mais piscoso desse rio, afluente do rio Acre. Deixaram a camionete à margem da estrada e carregaram a canoa nos ombros, através da floresta, até chegarem ao rio. No caminho, entre a mata fechada, o guia ia contando histórias dos bichos que habitavam aquela região. E alertou os jovens neófitos sobre a fartura de jacarés que se empanturravam de peixes, concorrendo com o bicho homem que lá ia pescar o alimento da semana.

Nisso, ao chegarem à beira do rio, o guia comentou:

- Passou um jacaré por aqui!

- Como sabe? Perguntaram. E o guia apontou para um tronco caído em que havia sinal de raspa na madeira, provocada pela barriga do réptil que se arrastara por cima.

Enquanto assentavam a canoa na água e arrumavam, dentro, a tralha da pescaria, o guia resolveu dar uma busca nos arredores.

Foi quando ouviram o grito: Venham ver!

Os meninos, de espingarda e revólver nas mãos, acorreram na direção do som! Assombrados, viram pela primeira vez, um enorme jacaré açu que se estendia em meio às folhas mortas pelo chão.

Apavorados, começaram a atirar. O guia explicava que tinham que acertar nos olhos do jacaré que, de boca escancarada, mexia com a cabeça de um lado para o outro, dificultando ainda mais a pontaria daqueles que não tinham experiência com o manejo das armas. Acabaram com a munição e só conseguiram irritar o monstro que começou a se arrastar em direção a eles.

A sorte foi que, atraídos pelos tiros, dois caçadores se aproximaram e, com pontaria certeira, abateram o gigante.

A pescaria acabou, é certo! Mas os rapazes, que não tinham como provar a façanha que iriam contar para a família e os colegas da cidade, pois não haviam levado máquina fotográfica, ficaram matutando como carregar o jacaré que ali jazia, que nem cabia na carroceria do Pampa, de tão grande que era.

Queriam medir o tamanho do dito cujo. Recorreram a um cipó que estenderam ao longo do corpo, do rabo à cabeça, enrolaram o cipó que depois seria aferido com a trena. Conferiram mais tarde: o bicho media três metros e meio!

Não podendo levar o animal inteiro, como prova, pegaram o facão e, com grande dificuldade, cortaram o rabo, uma pata e a cabeça do brutamonte.

Ao chegarem ao sítio onde as famílias passavam o domingo, fizeram aquele alarde, cada qual querendo contar maior vantagem!

Do rabo, retiraram o couro e de sua carne branquinha foi feito um delicioso refogado à semelhança do pirarucu desfiado, temperado com pimentinha de cheiro, chicória e demais condimentos. A cabeça do gigante foi enterrada para, depois de algum tempo, o crânio ser dependurado na parede, como troféu daquela empreitada. A pata foi levada para exibir entre os colegas no outro dia.

E assim, foi o “batismo” desses pescadores novatos que até hoje contam, com entusiasmo, a aventura que tiveram e de cujo perigo escaparam!

Um dia voltaram ao sítio para exumar o crânio do enorme jacaré, mas não mais localizaram onde fora enterrado o que seria o troféu daqueles intrépidos rapazes. Quem sabe, daqui a centenas de anos, a ossada será transformada em fóssil a ser descoberto por algum paleontólogo e sobre o qual serão feitas inúmeras conjeturas.

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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