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Se cansa? Cansa muuuuito! Mas não conheço o verbo desistir. A gente respira, toma um antialérgico e continua. Na vida não tem ré!

08/10/2021 14h24 Atualizada há 1 semana
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
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Por Socorro Camelo

 

 “Quais são as tiranias que você engole dia após dia e tenta tomar para si, até adoecer e morrer por causa delas, ainda em silêncio?”

 

Desde que me tornei jornalista, sempre lutei contra a ideia de que, no jornalismo, a história só existe quando o homem é quem morde o cachorro. Contar histórias é, também, trazer à luz reportagens de um Brasil que resiste.

E quantas pessoas há por aí, esperando para terem suas histórias contadas!

Pessoas que são iguais a vinho raro, que estão escondidas nos mais recônditos lugares, à espera de serem descobertas e degustadas.

Foi pensando nisso que, lá atrás, tive a ideia do Prêmio MP Atitude, um projeto que surgiu à época em que era assessora do Ministério Público do Acre.

Eu pensava: como iria convencer as pessoas que isso é um ouro que fica dentro da gente e que ninguém tira, mais importante até do que outros prêmios já criados? E mais: que a ideia não era só o fruto de uma cabecinha sonhadora e hiperativa?

Era preciso ouvir e discutir a ideia com um jornalista confiável e profissional. Fabio Gusmão, meu amigo forever, que cobriu, por tanto tempo, a área policial do Jornal O Globo (hoje é editor do RJ), considerada “da pesada”, era perfeito para isso.

Fábio tem olhos e ouvidos e, principalmente, o coração, abertos diante da informação em estado bruto. Acho que por isso nos damos tão bem. Pessoa certa e projeto pronto, estava enfim criado o MP Atitude com a função de trazer para o claro, exemplos invisíveis, fazer descobertas de pessoas raras, que, de forma silenciosa, dão exemplos de solidariedade, de atitude e respeito com o outro.

Um silêncio quebrado de tanta gente linda, que sem o apoio do procurador geral Oswaldo D'Albuquerque, não teria acontecido. Ele abraçou a ideia e, foi para minha alegria, o avesso da dinâmica formal e burocrática. Dr. Oswaldo enxergou o sentido em premiar a grandeza dos pequenos feitos, de pessoas que passam despercebidas. E foi premiado por isso. O MP Atitude se tornou uma experiência ousada, inédita e reconhecida com premiação e menções honrosas, em nível nacional.

É assim que entendo o jornalismo. Como algo que pode melhorar a vida das pessoas.

Fiquei muito tempo em assessorias de comunicação, distante de redações de jornal, mas ainda assim, tentei nunca deixar de praticar o jornalismo em que acredito: o de dar sentido a quem não tem nenhum.

Mas isso tem um preço. As minhas “vísceras” sempre estão expostas.

Sou afetada por tudo, vivo o jornalismo com o corpo. E ontem, tive uma reação alérgica (novidade para mim). Meu rosto e partes do corpo ficaram assustadoramente inchados. Um baita susto!

Que meus sentidos são à flor da pele, eu já sabia. Sou assim desde criança, tenho febre de saudade, sofro para me separar de quem eu gosto (ainda que seja por pouco tempo), posso passar mal e vomitar ao presenciar coisas que me chocam ou me deixam tristes, e, agora já sei, que diante de embates levianos e falsos, posso também empolar e inchar de frustração e tristeza. “Lasquei-me!” Como diria o bordão paraense.

Ontem, não consegui sequer escrever a coluna diária que faço aqui neste Acreaovivo. Entrei numa zona de silêncio que não me permitiu escrever sobre nada, nem pra mim mesma, como faço quando fico afetada com algo.

Hoje cedo, me deparei com o ensaio do livro “Irmã Outsider” da pensadora, poeta e feminista negra Audre Lorde, onde ela faz um questionamento sobre o silêncio e tirania (coloquei nas aspas lá no início deste artigo).

E Lorde afirma que os silêncios nunca vão nos proteger. A linguagem e a ação sim. Podemos aprender a agir e falar quando temos medo, da mesma maneira como aprendemos a agir e falar, quando estamos cansadas, diz ela. Caso contrário, o peso desse silêncio nos sufocará.

As diferenças entre nós não são as que nos imobilizam, mas sim o silêncio. E há muitos silêncios a serem quebrados.

Ler sobre isso me fez um bem danado e me deu uma sacudidela. 

E é claro que as boas intenções vão continuar a se perder no lamaçal das calúnias, das mentiras. E ainda será cada vez mais frequente para muitos, a ideia de que vale tudo pelo poder.

O preço a pagar pela coerência é sempre alto, sem garantias de suplantar as armações, a inveja, o veneno.

Mas se uma lição se pode tirar é que, ao realizar qualquer trabalho, precisamos estar em paz com nossa consciência. Ter certeza de estar do lado da verdade, destacada em tantas camadas de mentiras e disfarces.

Os que se regozijaram com o poder não notam que a verdadeira vitória está em se manter fiel a seus princípios, sem se bandear para os caminhos mais fáceis. E que um percalço pequeno não tem o poder de apagar uma vida inteira de trabalho, realizado com responsabilidade e entrega.

Nós determinamos o que vamos colher. Essa é a razão de sermos criteriosos e responsáveis. Eu não gosto de disputas. Nem por amizades, nem por amores e nem por nada. Detesto embates ridículos e miudezas babaquérrimas. Tenho preguiça de gente que faz juízo da gente o tempo inteiro. Embora saiba que meu desafio é tentar ser justa sempre. E deixar a ignorância e imbecilidade, a malignidade, a boçalidade sempre do lado de fora da minha porta.

Se por um lado existe falta de ética a rodo na vida, por outro existe gente legal que se recusa a compactuar com isso. Ninguém está livre de sacanear e de ser sacaneado. Mas todo mundo tem a chance de acender as lamparinas do juízo, a ponto de se colocar no lugar dos outros e evitar a porcaria moral. O tal do batido, mas tão necessário “colocar-se no sapato do outro”.

Não gosto de magoar os outros. Isso me dói numa intensidade alucinante. Mas, às vezes, eu faço isso sim. Magoar, já magoei, mas nunca sacaneei. Se o fiz, foi por pura falta de noção. E sinto muito por isso.

Eu sou estabanada, transparente como um aquário de peixes- dourados, ansiosa, direta, não puxo o saco de ninguém (mentira, rasgo seda para quem eu gosto e acho que merece) mas também sou divertida, e sou “out of the box”. Difícil ter tédio comigo (sou legal, gente).

Mas existe um povo que não entende que nem tudo é disputa, que planta mentiras, que não pode ocupar um cargo sequer de síndico do prédio, porque se transforma em um monstro, cheio de egos e venenos.

Eu não possuo habilidades de manejo destas muletas, desse tipo de postura.  Mas não quero aprender.

O jornalismo é uma paixão que não se acaba. A ele regressei depois de muitas experiências em assessorias, mais experiente e mais ciente das limitações da verdade nesses tempos tristes de manipulações e mentiras. Espero continuar buscando sempre essa verdade, razão maior de minhas escolhas de vida e da minha atividade profissional.

Se cansa? Cansa muuuuito! Mas não conheço o verbo desistir.  A gente respira, toma um antialérgico e continua. Na vida não tem ré!

Só, go forward.

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Sobre Socorro Camelo
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