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Anibal Diniz; Amazôn

Identidade e Florestania – Por Aníbal Diniz

“Florestania” é um vocábulo a ser estudado e merece o esforço da comunidade acadêmica no sentido de promover a sua compreensão, definição e disseminação.

06/09/2015 22h40
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
Identidade e Florestania – Por Aníbal Diniz

Escrevi há poucos dias elogiando a iniciativa do jornalista, administrador de empresas e ativista cultural Alexandre Nunes, por ter disponibilizado na internet os dez programas “Identidade” dedicados ao tema “Florestania”, gravados durante o segundo governo de Jorge Viana com personalidades como Marina Silva, Elson Martins da Silveira, Toinho Alves, Leonardo Boff e outros. Por ser um assunto instigante e absolutamente atual, utilizo o artigo de hoje para falar do meu orgulho de ter feito parte desse projeto, que teve o próprio Alexandre Nunes como diretor e minha companheira socióloga e jornalista Elisângela Pontes como entrevistadora.

Alexandre Nunes está de parabéns porque o Programa “Identidade”, levado ao ar inicialmente pela TV Aldeia, constitui-se numa das poucas ideias concretizadas no que diz respeito ao registro das melhores abordagens em torno desse conceito que o jornalista, historiador e filósofo Antonio Alves (Toinho) desenvolveu a partir de sua visão de mundo e de sustentabilidade adquirida em suas leituras e também em sua vivência e conversas com pessoas da floresta. Mesmo as das cidades, porque as cidades do Acre e da Amazônia são pequenos núcleos urbanos em clareiras abertas na floresta. São, portanto, cidades da floresta. Além de Toinho Alves, salvo engano meu, o ativista cultural Jorge Nazaré, que nos deixou tão prematuramente, também teve alguma participação na criação do termo “Florestania”. 

O conceito é polêmico e talvez aí resida o essencial de sua riqueza. Se fosse unanimidade, seria pobre! No meu limitado modo de ver,  “Florestania” se constitui num vocábulo tão abrangente que é capaz de, ao mesmo tempo, abrigar simultaneamente todas as dimensões da sustentabilidade: ambiental, econômica, social, política, cultural e ética, sendo que cada uma dessas dimensões abriga vasto acúmulo de informações, opiniões e conhecimentos.

Para mim, e acredito que para boa parte dos entrevistados, o termo “Florestania” é um dos importantes legados do povo do Acre, cujo protagonismo se fez sentir em momentos cruciais da história recente, desde a revolução vitoriosa que resultou na incorporação desse vasto território de florestas, rios e povos ao Brasil. Digo povos porque o Acre abriga entre 14 e 16 etnias com língua e culturas diferentes, sem contar as tribos isoladas tão bem cuidadas pelo indigenista José Meireles. Na chamada “Batalha da Borracha”, os seringueiros promovidos a soldados da borracha garantiram o suprimento da matéria prima essencial para a indústria pneumática das forças aliadas quando os japoneses tomaram os seringais da Malásia na segunda guerra mundial.  E, mais recentemente, nas décadas de 1970 e 1980, a luta e o sacrifício de Chico Mendes em Xapuri, que chamou a atenção do mundo para a questão ambiental e a importância da floresta amazônica para o equilíbrio do planeta.

“Florestania” é um vocábulo a ser estudado e merece o esforço da comunidade acadêmica no sentido de promover a sua compreensão, definição e disseminação.

Lembro que numa das palestras do grande teólogo e ecologista Leonardo Boff , ele usou uma figura de linguagem muito bonita para dizer que todo projeto bem sucedido precisa da uma boa metáfora. E completou que a expressão “Florestania” se apresentava como a metáfora perfeita para simbolizar o projeto de vida dos povos amazônicos, que, com seus ritos, seus costumes, suas crenças e suas culturas, contribuem extraordinariamente para a saúde e a qualidade de vida de toda a humanidade, e por isso tem o direito ao melhor que a sociedade pode oferecer em termos de conforto, segurança, desenvolvimento econômico, conectividade e educação.

Vale a pena conferir as reflexões sobre “Florestania” disponibilizadas em no canal Alex Nunes Nobre (clique aqui)

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* Aníbal Diniz, 52, jornalista, graduado em História pela UFAC, foi diretor de jornalismo da TV Gazeta (1990 – 1992) assessor da Prefeitura de Rio Branco na gestão Jorge Viana (1993 – 1996), assessor e secretário de comunicação do Governo do Acre nas administrações Jorge Viana e Binho Marques (1999 – 2010) e senador pelo PT- Acre (Dez/2010 – Jan/2015), atual assessor da Liderança do Governo no Congresso Nacional.

 

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