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MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | As obsoletas cartas de antigamente

Não há como negar o prazer imenso, a saudade e a melancolia que estas leituras me proporcionaram

29/08/2021 01h30
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | As obsoletas cartas de antigamente

Por Edir Figueira Marques

Estive pensando que a literatura e a memória de histórias familiares, das relações entre amigos e até o registro de negócios comerciais estão em decadência, com a ausência de relatos escritos, na medida em que a tecnologia se desenvolve e as informações são trocadas por telefonia ou pelas redes sociais.

Tenho a mania de guardar lembranças e lembrancinhas, desde simples cartões de natal e de felicitações de aniversário, até longas cartas trocadas, em especial, com meus pais, no tempo em que não dispúnhamos sequer de telefone para mandar notícias e matar as saudades, neste longínquo recanto de nosso país.

Relendo-as, recordo-me de fatos, transporto-me no tempo e retrocedo mais de cinquenta anos, quando vim morar em Rio Branco, separando-me da família de origem, ainda muito nova e com a responsabilidade de mãe de primeira viagem, em terra desconhecida e sem os recursos a que fui acostumada.

A comunicação telefônica, trazida pela Embratel, com a magia do DDD, que instantaneamente nos aproxima pelo som e a emoção da voz, só surgiu em meados da década de 70. Por isso, era tão importante escrever cartas, enviadas pelo correio, que, por sua vez, demandavam longo tempo até chegar a seu destino.

Hoje, o cuidado secular com a escrita das cartas não é observado, no afã de noticiar ou comentar, de forma rápida e superficial, os posts nas redes sociais, que substituíram, modernamente, a troca de correspondências.  Daí o declínio da literatura epistolar.

Se, por um lado, o telefone, e agora o celular, com o face time, nos facultam ouvir e ver a imagem das pessoas queridas, se o facebook e o instagram viabilizam expor fotos, publicar textos, fazer comentários em tempo real, há de se reconhecer que tudo se torna rapidamente volátil. Nada fica registrado. Quando muito, o próprio facebook se encarrega de exibir posts antigos, de dois, três anos atrás, a seu bel prazer, para rememorarmos.

Hoje, me deparei com algumas cartas amareladas pelo tempo e pude deleitar-me com certos fatos que estavam perdidos (ou guardados) no recôndito da memória. Cartas de amor, de namorados, quando nos separávamos por longas viagens; cartas de família, de irmã e de filha saudosa; cartas dos filhos estudantes, dando notícias e pedindo para aumentar a mesada; cartas maternas de conselhos para o filho distante!

Não há como negar o prazer imenso, a saudade e a melancolia que estas leituras me proporcionaram. E refleti como a vida transcorria mais lenta, dependurada no tempo de espera, de olho na caixa do correio.

Fico conjeturando: os jovens enamorados de hoje estão privados da emoção de receber um envelope, com o conteúdo de textos românticos, que faziam arfar o coração, com a chegada do correio. Correspondências, muitas vezes, escondidas no bolso do avental ou no regaço, junto ao peito, para serem lidas e relidas, no silêncio do quarto; sorvidas, palavra por palavra, buscando nas entrelinhas o não dito, o sonhado, o adivinhado! E depois rabiscar respostas, rasgar, reescrever, tentar colocar no papel, com o único recurso das palavras, o sentimento que palpita, a lágrima contida, o beijo e o abraço imaginados de olhos fechados, sem a força da imagem ou o embargo da voz, que hoje é possível, para intensificar a comunicação. Vez ou outra, o envio de fotografias para reforçar a lembrança, para suprir o vazio de um corpo desejado.

Hoje, não há que ter o cuidado ao escrever para os pais, na tentativa de não deixar vazar uma queixa, um reclamo, uma lamúria! Dar notícias boas, confortar a saudade, evitar passar uma dor sentida! Afinal, o sofrimento ou a atribulação do momento já seriam passado, ao receber a missiva, passado que não valia a pena comunicar, pois o tempo consertou ou fez esquecer ou curou o que estava machucando, na ocasião do registro.

Os tempos são outros! Perdemos ou ganhamos com as mudanças? Desconfio que perdemos...

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
Rio Branco - AC
Atualizado às 22h46 - Fonte: Climatempo
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