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MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | A sorte está lançada

O jogador, cabisbaixo, fazendo suspense, entrou no quarto e, antes que a esposa desandasse em prantos, atirou um volumoso pacote de pesos argentinos que se espalharam sobre a cama!

15/08/2021 10h43
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | A sorte está lançada

Por Edir Figueira Marques

Fim de governo e, na espera da solenidade de passagem da faixa para seu sucessor, reuniram-se, na antessala do gabinete do palácio, o governador com seus auxiliares mais próximos. O assunto era o que cada um iria fazer no dia seguinte, demitidos de seu status de Secretário de Estado. Para alguns, o destino seria retomar a profissão e seguir com a vida, na rotina diária da luta pela sobrevivência. Enquanto outros resolveram desfrutar de merecidas férias, que compensassem o stress de quatro anos dedicados ao nobre trabalho de auxiliar a um governo que - diga-se lá quem pensar o contrário - foi um dos poucos que cumpriram com o dever, sem do poder tirar proveito para si próprio.

Vivia-se debaixo do olhar do serviço secreto, numa época em que o país estava sob o domínio do governo central de intervenção militar. Todos eram fiscalizados, não só quanto a suas atitudes no trabalho, como na vida social e, quiçá, pessoal. Não se pedia autorização para abrir o sigilo bancário ou telefônico. Todos eram “virados do avesso”, muitas vezes, injustamente, sem nenhum motivo. Bastava uma desconfiança de traição política, despertada por uma denúncia anônima, fosse por inveja ou por vingança.

Em dado momento, uma de suas assessoras foi surpreendida com a pergunta do governador, que estava prestes a entregar o cargo:

- E a senhora, professora Vânia, vai gastar seus cem mil cruzeiros que tirou da poupança em viagem de férias, com seu marido, à Buenos Aires?

Incrédula com a descoberta do conhecimento do valor em dinheiro, que conseguira amealhar em quatro anos de dedicação, e que seria aplicado em sua primeira viagem ao exterior, a ingênua assessora, um tanto indignada e corada por se ver despida de privacidade, em sua timidez, retrucou:

- Como soube, senhor governador?

Ao que o discreto e sisudo chefe de Estado, pela primeira vez riu, descontraído, e esclareceu o que muitos supunham e de que, então, tiveram a comprovação: o Serviço Nacional de Inteligência tudo sabia, pois vasculhava a vida de todos. E, depois, aqui se vivia “em terra de muros baixos”. Numa cidade pequena, em que todos se conheciam, difícil era guardar-se algum segredo. Talvez nem precisasse do SNI, pois havia um número considerável de pessoas que tinham como hobby preferido, bisbilhotar a vida alheia.

Mas, vamos ao fato, motivo dessa história.

O casal planejou muito bem sua viagem e mandou buscar a tia, que residia em Manaus, para cuidar dos quatro peraltas sobrinhos, além da babá e da cozinheira que já conheciam os gostos, jeitos e trejeitos dos meninos, filhos dos ocupadíssimos patrões que sairiam de férias, sozinhos, pela primeira vez.

Com alegria transbordante, porém, já saudosos e preocupados com a separação de seus pimpolhos, lá se foram de avião até São Paulo, onde se entrosariam em um grupo de excursão à Argentina.

Os dois conheceram, no percurso, um casal paulista que, pela terceira vez, viajava, não mais para conhecer as paisagens e a cultura da bela cidade com ares europeus. Segundo os dois confessaram, o objetivo era aventurar-se no cassino, pois eram jogadores contumazes.

Já em Buenos Aires, o casal protagonista dessa história maravilhou-se com tudo novo que viu, apreciando cada passeio, em clima ameno e dias ensolarados, saboreando a excelente carne dos pampas, acompanhada de deliciosos vinhos da safra nacional. E, além de tudo, gozando da agradável companhia de turistas brasileiros, que, juntos, trocavam opiniões e fragmentos de histórias de vida, desvelando-se em suas diferentes personalidades.

A noite chegou e com ela a expectativa de desvendar o encanto e a magia de um cassino. Os jogadores paulistas, já veteranos na arte das apostas, guiaram o grupo que se atreveu a arriscar a sorte. Vânia e Roberto iam entre eles, na adrenalina da novidade e com a emoção à flor da pele! No caminho, os cicerones foram explicando os macetes do jogo de roleta.

Entre luzes e tapete vermelho, mesas de carteado, roletas e caça-níqueis, a sorte foi lançada. A gentil senhora não se aventurou na roleta, preferiu apostar moedas na máquina caça-níquel que, ora engolia seu dinheiro, ora despejava os metais que tilintavam e transbordavam dos copos coletores. Roberto fora atraído pelo mais emblemático jogo do cassino – a roleta. Com as fichas empilhadas em números que vão de zero a 36, estampados no pano verde, o croupier conclamava os apostadores excitados a fazerem suas apostas. Cronômetro das apostas encerrado! A roda começa a girar! E todos, com o olhar vidrado na roleta, aguardavam e torciam para que a bola parasse no seu número de sorte.

Não foi desta vez, mas, na noite seguinte, os apostadores voltaram para tentar, pelo menos, recuperar o perdido. Nova derrota! Desanimados, retornaram ao hotel.

No terceiro dia, após conhecer o colorido bairro La Boca e visitar San Telmo, com sua famosa feira de antiguidades, o grupo seguiu em passeio de barco no Delta do Tigre. Os jogadores comentavam sobre as emoções das noites anteriores, no cassino, em que não lograram êxito. Roberto, ao colocar a mão no bolso do casaco, encontrou uma ficha perdida, que sobrara da última aposta. Quando o paulista viu, comentou: “Esta é a ficha da sorte! Voltemos ao cassino esta noite, que você irá ganhar”...

Chegada a hora, a noite muito fria e o cansaço batendo, a jovem senhora do novel apostador confabulou com seu marido que não deveriam ir. Receava que ele tornasse a perder e ainda havia alguns dias de viagem pela frente. “E se não ganhasse? Estariam privados de outras diversões com o dinheiro curto!” A argumentação tinha sua razão de ser, pois, àquela época, não havia como recorrer ao banco, que não dispunha de serviços on-line, nem cartão de crédito que, hoje, tanto facilita a vida do consumidor. E levavam-se alguns dias para transferir uma quantia depositada.

Assim como os bancos, também os serviços dos correios eram precários. Cartões postais com notícias da viagem, que Vânia enviara para seus pais, até hoje não chegaram a seu destino. Mas o afoito marido, confiante que tinha em mãos a ficha da sorte, não se convenceu com a prudência da esposa e, deixando-a no hotel, lá se foi arriscar o último palpite, no pano verde.

A mulher, tristonha, enfiou-se sob as cobertas e dormiu, até que, tarde da noite, o marido bate à porta. Ansiosa, de um pulo, ela abre e logo pergunta: “Como foi?” O jogador, cabisbaixo, fazendo suspense, entrou no quarto e, antes que a esposa desandasse em prantos, atirou um volumoso pacote de pesos argentinos que se espalharam sobre a cama! E numa empolgante alegria se retrataram da rusga com que haviam se despedido. Roberto “quebrara a banca”, como se diz! E recuperara o prejuízo, com sobras!

No dia seguinte, o grupo ficou sabendo do sucesso do jogador principiante que, daí por diante, passou a ser chamado de El Milionário, sendo compelido a pagar um lauto jantar para todos, em comemoração ao grande feito! Dentre os sabores portenhos, prevalecia a parrilla, com carne de qualidade superior, acompanhada da degustação de vinhos dos melhores produtores locais, à base de uvas Malbec, enquanto apreciavam os sensuais dançarinos que deslizavam ao som do belíssimo tango de Gardel.

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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Atualizado às 23h26 - Fonte: Climatempo
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