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MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | Quero casar!

O seringueiro, aborrecido e decepcionado, ao se virar para a porta de saída, deixou seu lenço cair, espalhando uma quantidade considerável de notas e moedas no chão

04/07/2021 10h20
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO... | Quero casar!

Por Edir Figueira Marques

Dizia-se que, em um distante seringal nas plagas acreanas, morava Maria e seus cinco filhos. O pai, cansado daquela vida sem futuro, saiu um dia de casa e nunca mais voltou, deixando Dona Maria “a Deus dará”.

Passaram-se os anos, sabe Deus como, e o filho mais velho, Raimundo, já taludinho com seus dezoito anos e hormônios à flor da pele, premido pela necessidade fisiológica, ocupou o espaço do pai e marido, sustentando a casa e seus quatro irmãos menores, assumindo-lhe a responsabilidade e satisfazendo os instintos de Dona Maria, privada de amores conjugais há tantos anos! Era o arremedo tupiniquim do famoso complexo de Édipo. O desejo amoroso que o filho experimenta pela mãe, considerado pelo neurologista austríaco Sigmund Freud como “fenômeno universal psicológico inato dos seres humanos” se intensificara, numa região em que o “bicho” mulher era raríssimo. É fato que nos primórdios da ocupação do Acre, a falta do gênero feminino era tal, que os seringueiros improvisavam os bailes, dançando homem com homem, desafiando a ordem natural das coisas, decantada na música Vale Tudo, de Tim Maia: ...”só não vale dançar homem com homem...”

 A vizinhança já estava incomodada com a situação e, numa primeira oportunidade, “Seu” Francisco, vizinho de “colocação”, tomou fôlego e externou a opinião de todos para o casal:

- Dona Maria, “Seu” Raimundo, vocês têm que ir à cidade, procurar o juiz e se casar. Não há como continuar vivendo assim!

“Matutaram” a respeito e, após vender as pélas de borracha e arrecadar um bom dinheirinho, amarraram-no em um lenço, como era costume da época, e partiram para a cidade. Lá, Raimundo procurou o Forum. Contou ao guarda que queria se casar e precisava falar com o juiz. Foi encaminhado ao escrivão, pois não havia magistrado na cidade.

- Seo Dotô, quero me casar.

- Pois não. O seu nome?

- Raimundo.

- E o nome da noiva?

- Maria, minha mãe.

O escrivão, que até o momento nem olhara para o cidadão, parou de escrever, tirou os óculos e caiu numa gargalhada, fitando o pretendente.

- Ninguém pode casar com a mãe, rapaz. Suma daqui!

O seringueiro, aborrecido e decepcionado, ao se virar para a porta de saída, deixou seu lenço cair, espalhando uma quantidade considerável de notas e moedas no chão. O tilintar das moedas chamou a atenção do auxiliar do juiz. Raimundo desculpou-se e disse que iria, então, procurar o Juiz de Paz, da boca do rio Caeté, já no Estado do Amazonas, pois ouviu falar que, talvez lá, ele pudesse se casar.

O “Dotô” escrivão, autoridade judiciária, com os olhos brilhando de cobiça, pede ao rapaz para sentar-se novamente, pois se lembrou de que o caso era estranho, mas que, provavelmente, poderia haver uma solução, por isso iria consultar nos livros. Então, pegou o seu Vade Mecum na prateleira e começou a folhear: olhava as folhas acima e abaixo, encenando uma pesquisa. Lia e relia. Até que parou e exclamou:

- Ah! Está aqui, eu sabia! Artigo 822: com a mãe pode casar, com o pai é que não pode!

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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Atualizado às 07h58 - Fonte: Climatempo
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