Sexta, 30 de Julho de 2021 00:18
(68) 99971-5137
Política Contra devastação

Indígenas vão ao STF contra estrada que quer ligar Acre e Peru

Governo peruano se opõe à construção da estrada e projeto pode não sair do papel

23/06/2021 11h33
Por: Denis Henrique Fonte: Acreaovivo.com | Juruá Online | Bol

O líder indígena  Ashaninka, Francisco Piyãko e a coordenadora da  Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Sonia Guajajara, se reuniram nessa terça feira, 22, em Brasília, com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux.

Piyãko, que é coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), afirmou a Fux, que  a construção da estrada entre Brasil e Peru, que vai de Cruzeiro do Sul a Pucallpa, cortando o Parque Nacional da Serra do Divisor, será um desastre para toda a região e vai atender somente  interesses políticos e empresariais, sem nenhum benefício para a população.

Ele diz que nenhuma consulta prévia foi feita às comunidades e que o local abriga uma das regiões de maior biodiversidade do mundo, além de passar por territórios de índios em isolamento voluntário no país vizinho. Piyãko explica que é preciso adotar  outras formas de desenvolvimento para a Amazônia, que não inclua estradas como esta.

“O desenvolvimento não pode ser pensado apenas a partir de uma estrada, existem outras formas de viver bem aqui na floresta. O que está ocorrendo nesta fronteira é uma articulação entre os poderes brasileiros e peruanos para massacrar e destruir os povos tradicionais e acabar com a paz, naquele local. Nós estamos com os dias contados, diante de tudo que a gente enfrentou, esse pode ser o momento mais difícil de nossas vidas. Não conseguimos visualizar, como vai ser o futuro das próximas gerações no meio deste sistema devastador, que está chegando em nossas comunidades”, declarou.

Segundo a Assessoria de Comunicação da Associação Apiwtxa, o ministro Luís Fux se colocou à disposição das lideranças a fim de que se cumpra o direito indígena e contra a violação de direitos nos territórios.

Protestos no Brasil e no Peru

Povos indígenas do Acre lançaram um manifesto se posicionando contra a construção da estrada, nesta semana. “Queremos escolher nosso modelo de desenvolvimento, com ações que melhorem a qualidade de vida e que sejam ao mesmo tempo sustentáveis, que se sustentam por muito tempo para que nossos netos e netas vivam bem”, cita o manifesto assinado por diversas organizações.

Atualmente, de acordo com Pyanko, a construção de outras estradas ameaça as comunidades indígenas e não indígenas na proximidade da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, do povo Ashaninka, na Aldeia Apiwtxa. Como as duas do lado peruano, ligando as comunidades de Nuevo Italia a Puerto Breu, cortando as cabeceiras de rios essenciais para os povos daquela região.

Imagens de satélite mostram cerca de cinco pistas ilegais, construídas ao longo da estrada UC-105, entre Nuevo Italia e Puerto Breu, em uma das regiões com maior produção de coca do Peru

No Peru, também existe luta dos povos tradicionais contra esses ataques. Berlín Diques, presidente da Orau (Organização Regional AIDESEP Ucayali), esteve na aldeia Apiwtxa, na última semana, para juntar forças e apresentar informações da situação em seu país. Ele afirma que quem está financiando as estradas são grupos ligados ao narcotráfico e a exploração madeireira.

“No ano passado, em plena pandemia da Covid-19, de abril de 2020 até fevereiro deste ano morreram seis líderes indígenas, de uma região de conflitos, somente por defenderem o território. Nós estamos sendo perseguidos pelas grandes máfias somente por defender o nosso território”, afirma Berlín.

Governo peruano se opõe a estrada com Brasil que ameaça reservas naturais

O governo peruano se opõe ao polêmico projeto promovido pelo Congresso para construir uma estrada entre Peru e Brasil na Amazônia, através de parques nacionais de ambos os países e perto de uma reserva indígena.

O ministro do Meio Ambiente, Gabriel Quijandría, advertiu nesta terça-feira, em conferência com a Associação de Imprensa Estrangeira no Peru (APEP), que esta infraestrutura pode incentivar o desmatamento ilegal e o tráfico de drogas que já afeta o local.

O projeto de estrada entre a cidade peruana de Pucallpa, capital da região de Ucayali, e o município de Cruzeiro do Sul, o segundo maior do Acre, foi declarado de interesse nacional pelo Congresso do Peru em maio.

A iniciativa foi aprovada pelo Parlamento somente com a opinião favorável da comissão parlamentar de Trasnportes, e sem ter sido revisada pela comissão de Povos, Meio Ambiente e Ecologia.

Necessidade questionada

Ao longo de 250 quilómetros entre rios e florestas amazônicas, esta estrada atravessaria o Parque Nacional da Sierra del Divisor, que atravessa a fronteira entre Peru e Brasil, e passaria também muito perto da Reserva Indígena Isconahua e da proposta de Área de Conservação Regional do Alto Tamaya.

"O Ministério do Meio Ambiente sempre insistiu na necessidade de compreender que a infraestrutura tem que responder a uma estratégia de desenvolvimento. Um projeto de infraestrutura não é uma estratégia de desenvolvimento. É um meio para alcançar algo", disse Quijandría.

"Se não estiver claro sobre que tipo de desenvolvimento quero alcançar em um território e não estou claro sobre as características desse território, estou provavelmente propondo infraestruturas que não preciso", acrescentou.

O chefe da pasta argumetnou que, como resultado das condições da pandemia de covid-19, ficou provado que a necessidade de infraestruturas rodoviárias "não é tão crítica", enquanto outros tipos, como acesso à internet em áreas remotas, distantes e rurais, têm sido urgentes.

Precedente negativo

Quijandría recordou também a experiência com a rodovia interoceânica que liga Peru e Brasil através da parte sul do território peruano.

"Em 2001, dissemos que o efeito mais claro que a rodovia interoceânica teria seria facilitar a exploração mineradora ilegal na região de Madre de Dios, e infelizmente não nos enganamos", lembrou Quijandría.

"Ao facilitar o acesso e reduzir os custos logísticos para os operadores da economia ilegal, juntamente com o aumento do preço do ouro, foi uma tempestade perfeita", explicou.

O ministro complementou que essa estrada foi uma das principais causas de um pico histórico de 50 mil hectares de florestas arrasados nesta região entre 2016 e 2017, incluindo vários setores da Reserva Nacional de Tambopata que "felizmente conseguiram ser recuperados".

A Defensoria do Povo também manifestou oposição à estrada Pucallpa-Cruzeiro do Sul, com o argumento de que colocaria em risco a saúde e a vida dos povos indígenas em isolamento, além de levar perigo às florestas virgens.

O órgão de defesa dos direitos advertiu que a resolução do Congresso "carece de análise e apoio para a sua viabilidade socioambiental" e lembrou que "é importante promover o desenvolvimento econômico, mas considerando alternativas que sejam compatíveis com o desenvolvimento sustentável e a garantia de direitos".

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Rio Branco - AC
Atualizado às 02h15 - Fonte: Climatempo
16°
Alguma nebulosidade

Mín. 13° Máx. 27°

16° Sensação
7 km/h Vento
59% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (31/07)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 14° Máx. 30°

Sol com algumas nuvens
Domingo (01/08)
Madrugada
Manhã
Tarde
Noite

Mín. 15° Máx. 31°

Sol com algumas nuvens