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MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO...| Namoro no tempo da vovó

Era uma vez, uma linda moça, filha de abastada família tradicional de Minas Gerais, cujo pai era um dos “barões do café”.

13/06/2021 00h00
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
MEMÓRIAS ENGRAÇADAS E NEM TANTO...| Namoro no tempo da vovó

Por Edir Figueira Marques

A vida não se constrói a partir do nada. Ninguém existe sem um passado, sem uma origem. É interessante observar como os destinos se entrelaçam e como vão moldando e dando contorno a outras vidas que, mais adiante, vão se entrecruzar, ao acaso, com outros seres, em lugares e situações inimagináveis. E, ad infinitum, outros seres vão palmilhando este mundo, cada qual com sua história particular, única, inigualável e, no entanto, paradoxalmente, tão semelhantes.

Era uma vez, uma linda moça, filha de abastada família tradicional de Minas Gerais, cujo pai era um dos “barões do café”. Irene recebeu educação primorosa, em colégio interno, no Rio de Janeiro.

Durante as férias, já na cidade de Além Paraíba, onde seu pai mantinha escritório, ela conheceu Edesio, um jovem trabalhador de família rural, já tendo sofrido o debacle do café e, portanto, enfrentando dificuldades financeiras. Enamoraram-se e, mesmo à distância, trocaram românticas e apaixonadas cartas de amor, até que acabaram por obter o consentimento, um pouco a contragosto, para o noivado.

Casaram-se e, com muita luta, foram galgando melhor situação. Dois anos depois do nascimento de sua primeira e única filha, Ione, o Sr. Edesio levou a família para Foz do Iguaçu, onde fora como gerente da firma que construía o Parque Nacional, lá residindo por cerca de um ano. Por fim, estabeleceram-se no Rio de Janeiro.

Ione estudou o curso primário também em colégio de freiras. Desde cedo, despertou sua vocação para o ensino e sua mãe, pressurosamente, a matriculou no curso preparatório, pois pretendia fazer o exame de admissão ao ginásio para o concorridíssimo Instituto de Educação do Rio de Janeiro, que formava, com exclusividade, como estabelecimento público, as futuras professoras do Estado.

Com quinze anos de idade, já aluna da primeira série do curso normal do Instituto de Educação, Ione se encontrava em dificuldades com a tradução de textos de Cícero, em Latim, ao se preparar para a prova oral, perante banca de três professores examinadores. Sim, pois naquele tempo, além de ter que estudar Latim, havia provas escritas e orais, de caráter obrigatório!

Marly, filha da amiga de infância de sua mãe, indicou-lhe um colega, que era estudante da Faculdade de Filosofia e Letras Clássicas, além de ter sido seminarista e que, portanto, dominava o Latim fluentemente.

Sergio ficou órfão de pai com um ano de idade e perdeu a mãe com nove anos, de forma trágica, numa longínqua cidade do interior da Amazônia. A saída, para sua educação, entregue que fora ao tio materno, foi interná-lo no seminário, ainda menino, do qual só saiu rapaz, no Rio de Janeiro, tendo que sobreviver com parcos recursos oriundos de aulas particulares e de um modesto emprego. Por isso, tudo que pudesse somar com o suor de seu trabalho, aceitava de bom gosto. Mas, aquela aluna lhe renderia muito mais que minguados cruzeiros com que era remunerado.

Os pais desta adolescente, muito ciosos, prontamente se dispuseram a contratar-lhe aulas particulares em domicílio, o que acontecia à noitinha, com a mãe da garota sempre por perto, fazendo crochê.

Ao chegar o grande dia do exame oral, o mestre particular surge na sala de aula, com ar professoral, vestido de terno e gravata, para assistir ao desempenho de sua tímida aluna, deixando-a ainda mais nervosa e “envergonhada”, perante suas colegas.

Daí em diante, de forma sutil, e como que por acaso, de vez em quando, “coincidia” que Ione, ao pegar o bonde para voltar da escola, encontrava seu ex-professor, que, gentilmente, a acompanhava até a casa.

Até que um dia, ela recebe um telefonema de Sergio e, conversa vai, conversa vem, ele lhe pergunta:

- Sua mãe já sabe?

- Sabe o quê? Interroga a menina ingênua.

E aí a declaração:

- Que estamos namorando?!

- Ah! E nós estamos namorando? - responde a ex-aluna, surpreendida.

Na verdade, o flerte, já vinha acontecendo desde a festa caipira que Marly promovera em sua bela casa. Sergio, durante a quadrilha, vez ou outra, se emparelhava na dança, com sua pretendida.

Posteriormente, esta amiga comum organizou uma festa surpresa para o aniversário de Sergio, no vasto salão de sua residência, com a presença dos colegas de Faculdade de ambos. Ione, como amiguinha de Marly, também foi convidada, e, pela primeira vez, levemente maquiada, trajando um vestido justo e sapatos de salto alto, participou de um baile. A menina, transformada em moça, de repente, se tornou atração, sendo disputada para dançar.

A mãe de Marly sugeriu, - como animação para incrementar a festa, aproximar os casais e fazer com que todos dançassem, evitando aqueles pares constantes - brincadeiras de salão de origem francesa, intituladas cotillion ou cotillon. Uma delas era assim: todas as moças receberam uma velinha e os rapazes uma caixa de fósforos, ambas numeradas. Ao chamar os participantes pelo número, os pares iam se formando. Quis o destino que o jovem que acendeu a velinha da menina-moça Ione fosse o Sergio.

Foram mais de quatro anos de namoro, que os jovens atuais nem sequer imaginam que pudesse acontecer! Como se sustentava um relacionamento cerceado pelo controle rigoroso de um pai à moda antiga, que “marcava de perto”? Só mesmo sob a proteção da fada-madrinha que era Dona Irene, a mãe da adolescente!

Depois de muito conversar “no pé do ouvido” do austero marido, ele enfim consentiu, com restrições, que os enamorados falassem por telefone e, se encontrassem somente às quintas-feiras, sábados e domingos, em rígido horário. E tinha que ser na varanda da residência, onde, de vez em quando, a mãe dava uma espiadela, como quem não quer nada...

O severo pai de Ione tinha lá sua razão, conformava-se Sergio. A moça era novinha e estava longe de poder casar-se, como na música A Normalista: “Mas, a normalista linda / Não pode casar ainda / Só depois que se formar”...

Certo domingo, após assistirem ao futebol pela televisão, começou a chover torrencialmente. Daquelas chuvas, no Rio de Janeiro que, ainda hoje, abalam as estruturas. As águas começaram a empoçar e a subir, subir, sem ter para onde escoar, chegando à altura da cintura. Então, Dona Irene propôs ao jovem Sergio que dormisse aquela noite em casa, no quarto dos meninos, pois não achava conveniente que enfrentasse aquele temporal, que interrompia o trânsito. Mas, foi logo alertando:

- Olhe, Sergio, não pense que estou forçando-o a nada. Não quer dizer que, pelo fato de você almoçar, lanchar e hoje dormir aqui, isso signifique compromisso maior com minha filha!

O jovem, um tanto constrangido e mesmo receoso de desagradar ao velho Edesio, acabou por sucumbir aos argumentos convincentes de Dona Irene.

Este era o jeito daquela mãe, avançada em seu tempo e intuitivamente uma psicóloga nata: sempre muito sincera, mas humanitária, prestativa. E Sergio, órfão desde criança, sentia-se confortado pelo carinho e cuidado maternos de Dona Irene. Sem falar que adorava os quitutes, em especial de domingo, com que ela e a eterna babá de seus filhos, agraciavam a todos, sempre oferecendo o prato predileto de cada um.

Chegou o dia do pedido de noivado, com ritual à moda antiga. Como era órfão, Sergio convidou um velho amigo conterrâneo para fazer o pedido solene. Houve, porém, uma restrição: Dona Irene, pressentindo algo e desejosa de não separar-se da filha, exigiu:

- Há uma condição! Não leve minha menina para a Amazônia, para longe de mim!

Sergio, que já estava formado advogado e professor, atuando no Rio de Janeiro, entendeu que poderia aquiescer à desolada mãe, que temia não resistir à separação.

E, assim, cumprida a palavra de seu severo pai, que só permitiria o casamento após formar-se, no mesmo dia das Bodas de Prata de seus genitores, Ione casou-se com Sergio.

Mas, eis que, pouco mais de um ano, já com um lindo bebê, surge a grande oportunidade de sua vida profissional e Sergio, assim como fizeram seus sogros, vinte anos atrás, leva a amada filha de Dona Irene, para uma remota cidadezinha do interior da Amazônia!

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Edir Figueira Marques
Sobre Edir Figueira Marques
Professora, mestre em pedagogia, escritora e poetisa.
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