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Manifesto loucas e bruxas ou como me tornei louca ou como me tornei bruxa

O corpo da mulher foi separado das suas propriedades místicas e é essa mitologia da bruxa-louca que nos contam sobre os nossos corpos que resistem e lutam contra a violência do racismo, do sexismo e da misoginia

17/04/2021 18h08
Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com
Manifesto loucas e bruxas ou como me tornei louca ou como me tornei bruxa

Por Antonia Tavares

Diante dessas palavras, os judeus ficaram outra vez divididos.

Muitos deles diziam: "Ele está endemoninhado e enlouqueceu. Por que ouvi-lo?"

Mas outros diziam: "Essas palavras não são de um endemoninhado. Pode um demônio abrir os olhos dos cegos?"

João 10:19-21 

Tudo começa na loucura. O mundo parou para mim quando me disseram que eu estava louca. Uma mulher inadequada, fora da realidade. Cedo ou tarde a gente dá de cara com a vida, e viver em si já não é uma loucura? Antes de confrontar a razão com a verdade a gente aceita resignada em culpa e pudor os padrões determinantes daquilo que é útil e nos colocamos inteiramente no lugar da loucura.

Por anos a fio acreditei que a realidade estava marcada a ferro e fogo na vergonha reprimida do meu corpo, o qual é proibido mostrar para não atentar contra o sistema, é a lei. Não pode isso, não serve aquilo, não cabe aquilo outro, cuidado com a língua, sentir além do normal é diabólico, paixões têm limites. Tem um bando de gente por aí falando um monte de blábláblá, dizendo que é mimimi. Esse é um tipo de sujeira que se esconde na base do patriarcado.

O capitalismo europeu colonizou nossos corpos com dor e sofrimento, nos impôs o medo diabólico dos nossos próprios ciclos naturais, nos queimou nas fogueiras santas e nos domesticou para servir como mercadoria barata no injusto mercado competitivo. Um animal adestrado não cria.

Ignorada e ignorante, amputei pernas e braços, arranquei com desapreço útero e coração, escondi as ancas, sufoquei o talento, controlei o raciocínio para não despertar a bruxa-louca ancestral. Pensei que [calada] manteria meu corpo louco desencantado e assim me salvaria. O que eu não sabia é que no corpo de uma fêmea ferida há igualmente uma força bruta ainda maior, mais selvagem e sagrada que conserva o corpo da mulher em chamas.

O corpo da mulher foi separado das suas propriedades místicas e é essa mitologia da bruxa-louca que nos contam sobre os nossos corpos que resistem e lutam contra a violência do racismo, do sexismo e da misoginia.

Deus-me-livre falar dessas coisas, até em pensamento me abala. Existiria outro mito da matéria iluminada para o corpo da mulher?  Se resiste é louca; se reage é bruxa. Resisti como uma bruxa, lutei como uma louca! Todo mito revela uma verdade genuína.

Para uma mulher, qualquer instante que se viva é perigoso e isso é naturalmente normal? O que torna uma mulher tão abominável?

No Brasil, cerca de 4 mulheres são vítimas de feminicídio por dia; a cada 2 minutos uma mulher é espancada e a cada 8 muitos uma criança é estuprada; o rendimento da mulher corresponde a pouco mais de 60% do que recebem os homens nas mesmas funções do mercado de trabalho, embora com maior grau de instrução; elas ocupam apenas 37% dos cargos de gerência e correspondem a 16% dos cargos de vereadores do último pleito e se for preta, pobre e trans a condição é muito, mas muito pior, no entanto não se trata de uma condição.

É uma história

Receio que já cheguei na terra devendo algo para alguém, o qual não posso dar nem a mim mesma na imaginação: um corpo-baú de mil segredos retalhados, era assim que eu censurava aquela pureza infantil, a sexualidade, os desejos, os sonhos e a beleza, até que em súbito descontrole no meio da rua gritei.

A hora se separou da avenida, o céu se abriu e rio corria dentro da cidade paralisada. Os desconhecidos me olhavam com nojo. Alguém perguntou com açoite: ela é doida? Pois foi o grito sujo que me salvou, foi ele que atravessou inflamado meu corpo e fez tudo parar por um instante; o grito libertou a palavra sufocada que me fizera prisioneira até aquele dia.

Num suspiro, o ovo espatifou-se no ar e o relógio rodou absoluto. Fui assaltada por lembranças: a infância, a vó e a fogueira junina. Tudo que existe é palavra, meu Deus e como não soubera disso? A verdade é a palavra, mas não essa que falam por aí, a palavra mesmo é outra coisa.

E foi assim que nasceu o feminismo poético que me alucina até hoje. Se calar é grave. Eu bem que poderia ter respondido: Não, ela ama a vida!

 Descobri que a palavra liberta a alma. Uma alma liberta luta com o vigor de uma ave que desafia a gravidade para se manter unida aos ares. O grito é também uma navalha que corta a carne e, no entanto, cura o animal ferido.

A verdade da razão é que sou uma mulher, mas o que é uma mulher? Como saberei, se não sou inteiramente livre para viver os meus próprios ciclos, se me negam o direito ao voo? Sem ser em si estarei [eu] vivendo? Ora, viver não é mesmo uma loucura? Quem estaria endemoniado, então, se todos se encontravam no jardim antes dos anjos caírem?

Depois de certa idade, não antes de me ferir – pois até mesmo na primavera flores murcham –, compreendi que a loucura dilacera o próprio corpo e depois sai costurando no húmus os pedaços invisíveis que o capital destruiu.

Se me contaram por livros como me tornei louca e bruxa, não seria através de uma nova fábula que se contaria a verdade sobre o corpo da mulher? Existiria no mundo um livro mágico que despertasse o poder da fêmea em gestação?

Não tenho mais medo de submergir d[n]as profundezas. Em liberdade, o corpo político da mulher cura os traumas do casamento, da procriação, do estupro, do aborto, da prostituição, do salário injusto e de outras violências. O corpo intuitivo liberta a fêmea arquetípica, a mulher dos mil nomes. Livre, o corpo sábio vira raiz e semente, é o ciclo.

Quebrar o pacto, recolher as cinzas, refazer o caminho, atualizar o debate, construir novas pautas, revigorar os ciclos com novos ritmos e ritos, costurar a mulher contemporânea numa nova mitologia integralmente de gênero, provocar eventos milagrosos possuídas de si e livre do demônio da máquina que nos mata todo dia.

O livro é livre. Meu corpo é um livro que sente e fala. Do meu livro já colhi sete histórias, cada história tem uma mulher e cada mulher três mistérios; cada mistério está em um livro com sete histórias, cada história uma mulher, cada mulher três mistérios e cada mistério em um livro...   

 

Terra - Amazônia, 2021.

Antonia Tavares. Autora de Loucas e bruxas, bruxas e loucas: contos e poeminhas. Editora 3 Serpentes, 2015.

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Antonia Tavares
Sobre Antonia Tavares
Economista. Especialista sênior em planejamento estratégico e gestão pública. Escritora de Loucas e bruxas, bruxas e loucas: contos e poeminhas
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Atualizado às 07h21 - Fonte: Climatempo
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