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Ciência e Saúde OPINIÃO

Eu vou chamar o síndico!

Um fenômeno que vem crescendo e que nos uni muito mais que o amor se chama ódio

26/02/2021 21h09 Atualizada há 1 mês
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Por: Redação Fonte: Acreaovivo.com

Por Talita Montysuma

Penso eu que quando a gente opta por morar em condomínio, não o deveria fazer por ser mais seguro, com guarita 24hs, ou por ter uma estrutura maravilhosa com área de lazer com churrasqueira, piscina, ou academia no prédio; salão de jogos, espaço gourmet, salão de festas e etc, mas sim por causa do grupo de WhatsApp.

Só quem participa desse grupo de WhatsApp sabe como é interessante, intensamente angustiante e as vezes medonho, é ali que a vida como ela é acontece, os vigilantes da vida alheia deram um upgrade para um outro nível, Hitchcock e sua janela indiscreta que o diga. As fofocas, tão comuns em cortiços, se maquiam de alta classe.

Um fenômeno que vem crescendo e que nos uni muito mais que o amor se chama ódio, não é à toa que Freud, em Totem e Tabu, nos propõe a pensar essa dualidade através do mito de criação da nossa sociedade que começa com um parricídio, não me admira esse afeto estar vivo até hoje por esses grupos.

O psicanalista Christian Dunker[1] e o filósofo Vladimir Safatle, que são pesquisadores da USP, cunham um termo chamado “a lógica do condomínio”, que metaforicamente irá colocar em foco a forma como a Pólis se organiza, se cindi e se defende de inimigos reais e imaginários, onde o medo vem como alicerce dessa organização, e é através desse medo que eu, sujeito, autorizo esse Estado a me proteger da morte e da barbárie.

Sendo assim, uma nova estética urbana nasce como via de sarar esse sintoma social, os muros, e nasce então o conceito de condomínio, onde, sobre a régia administrativa, tudo tem uma funcionalidade. Um oásis de paz e tranquilidades ilusórias medíocres de consumo.

Um único do resto, onde podemos partilhar a convivência comunitária entre os meus, iguais protegidos pelos muros, cercas, guaritas e cancelas, tudo mantido na mais perfeita ordem pela nossa figura paterna, o sindico: esta figura que tudo vê e sabe, responsável em manter esse “estado especial de lei”.

Essa mistura de fetiche e sintoma fica muito claro quando estamos nesses grupos de WhatsApp, a violência e intolerância que encontramos para com os membros do grupo e fora do grupo é assustadora, onde o condomínio insiste em criar certas regras e normas públicas, nos limites da vida privada, com o discurso de exceção em defesa contra a barbárie exterior, mas deixa exposto a carnificina no grupo do “zap”.

Talvez a via de saída se deva através do pensamento de Safatle - “Não são novas ideias que vão transformar o mundo São novos afetos que produzem novas ideias que vão transformar o mundo”.


[1] Dunker, Christian Iago Lenz. Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros – 1. Ed. – São Paulo: Boitempo, 2015 (Estado de Sítio)

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Talita Montysuma
Sobre Talita Montysuma
Psicóloga, especialista em Clínica Psicanalítica.
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Atualizado às 14h23 - Fonte: Climatempo
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