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Ciência e Saúde OPINIÃO

Mandela, BBB e Cancelamento

Esse tipo de discurso onde não existe o contraditório é um terreno fértil para a indústria do cancelamento, para o fascismo

20/02/2021 08h48 Atualizada há 1 semana
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Por: Denis Henrique Fonte: Acreaovivo.com
Mandela, BBB e Cancelamento

Por Talita Montysuma

Para Lacan e Foucault a realidade que conhecemos não existe. Digo que concordo, pois para o psicanalista e para o filósofo o que existe é a linguagem. Sim, o que existe é a letra, o símbolo, o significante, a anunciação, o enunciado, a denúncia e assim vai. Fico mais segura desse percurso psicanalítico que resolvi sustentar a cada escuta que tenho.

Existimos porque alguém nos disse isso através desse engendramento linguístico, dito isso, nossas relações seguem através de um enunciado levado pelo mensageiro ao seu destino, tal qual uma carta que se endereça a alguém. E como toda mensagem, ela nunca é codificada de forma fiel, pois, como uma tradução, há palavras que são intraduzíveis e/ou mal-ditas.

Sendo a psicanálise quem se debruça pela via do equívoco – que são palavras carregadas de afetos recalcados trabalhados na análise –, nossa ética está pautada no que chamamos de desejo do inconsciente e lá é um espaço que está para além da moralidade e racionalidade. Lacan vem a tempos dizendo como somos sujeitos dos discursos, da dialética, da ambivalência, do ato falho, do enunciado.

Dito isso, não consigo compactuar com o discurso capitalista que circula na Pólis, esse discurso da positividade tóxica; como se tornar milionário em três passos, tenha o corpo de fulana – “temos que ser felizes, se você não é feliz você está fazendo errado”; “todos podem ser milionários, você que não trabalha o suficiente”; “seja magro, tenha sempre pau duro e peitos também”.

Esse tipo de discurso onde não existe o contraditório é um terreno fértil para a indústria do cancelamento, para o fascismo. Discurso de ódio é algo identitário malsucedido, “Das Ding” [infamiliar]: você se liga a mim por onde eu escondo do avesso.

O exemplo disso é o que aconteceu com o Lucas Penteado no BBB21: ele fez uma suposição de aliança racial e isso foi suficiente para que houvesse movimento de linchamento, abuso psicológico e segregação a ele e a quem ousasse defendê-lo, estamos falando de um jovem que se encanta ao entrar em um parque de diversão.

Tal atitude fez com que esse garoto não tivesse a chance de se redimir e mostrar que aprendeu com seu ato. Em termos macropolíticos – diria até necropolíticos, que é por essa via que circula o discurso capitalista – vemos negros sendo julgados, condenados e forçados a um destino à margem, transformando esses objetos em abjetos, sem direito a sonhos, desejos e linguagem.

O discurso capitalista é violento e lutará com todas as suas forças para se manter vivo, ele é sedutor e fantasioso e responsável por verdadeiras prisões mentais que minam nossas forças e nos engolfam de culpa – “você causou isso”; “na favela só tem bandido, por isso tem que atirar pra matar”; “eu a amo demais e perdi a cabeça e a matei”.

Entretanto, sigo com fé em mim e no coletivo. Dividirei com vocês um poema que Mandela, ao contrário do que foi dito, permaneceu livre mesmo estando preso ao lê-lo.

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